A inteligência artificial avançou nas escolas brasileiras em uma velocidade maior do que a capacidade das instituições de definir como ela deve ser utilizada. Em abril de 2026, o Cetic.br voltou a destacar dados da 15ª edição da TIC Educação mostrando que 70% dos estudantes do Ensino Médio usuários de internet já recorrem a ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares, enquanto apenas 32% afirmam ter recebido orientação da escola sobre o uso dessas tecnologias. A pesquisa foi realizada em 1.023 escolas públicas e privadas, com 10.756 entrevistas entre gestores, coordenadores, professores e alunos. Outro estudo do próprio Cetic.br mostrou que 58% dos professores também utilizam IA generativa em atividades escolares. O problema, portanto, deixou de ser simplesmente decidir se ChatGPT, Gemini ou Copilot devem entrar na sala de aula e atividades de ensino. Eles já entraram. A discussão agora é como evitar que ferramentas capazes de produzir textos, resumos e respostas em segundos transformem tarefas escolares em exercícios de reprodução sem aprendizagem efetiva. Como transformar a estratégia de ensino para não ser só uma atividade de memorização e reprodução?
Para Celso Camilo, Doutor em Inteligência Artificial e professor da Universidade Federal de Goiás, a resposta não está na proibição das tecnologias, mas na mudança do que a escola cobra do estudante. Atividades cujo resultado pode ser produzido integralmente por uma máquina precisam dar espaço a exercícios que permitam indagações, interpretação, reflexão, argumentação e capacidade de checar informações. “Se a inteligência artificial consegue entregar em segundos exatamente o que uma atividade escolar pede, precisamos avaliar se o problema está apenas na ferramenta ou também na forma como aquela aprendizagem está sendo medida e porque está sendo pedida. A escola não pode disputar com a IA quem produz respostas mais rapidamente. Ela precisa ensinar o aluno a compreender, questionar e justificar essas respostas”, afirma Camilo. A avaliação pode, por exemplo, pedir que o estudante explique como chegou a determinada conclusão, apresente os argumentos de cada fonte consultada, identifique erros em uma resposta produzida por IA e sustente por que concorda ou discorda dela. A mudança desloca a tecnologia da posição de atalho para a de objeto de análise.
O diagnóstico encontra respaldo no Digital Education Outlook 2026, da OCDE. O relatório conclui que ferramentas de IA generativa podem melhorar a qualidade de uma tarefa sem necessariamente produzir ganho real de aprendizagem. Segundo a organização, estudantes que transferem parte do esforço cognitivo para chatbots de uso geral podem apresentar resultados melhores enquanto têm acesso à tecnologia, mas essa vantagem pode desaparecer, ou até se inverter, quando precisam realizar avaliações sem auxílio da IA. A OCDE recomenda que essas ferramentas sejam utilizadas com objetivo pedagógico claro e sem substituir o esforço intelectual do aluno. Isso abre espaço para uma revisão prática das atividades escolares. Em vez de solicitar apenas um resumo, o professor pode apresentar respostas diferentes produzidas por IA e pedir ao aluno que encontre falhas, confronte informações com fontes confiáveis, reconheça vieses e construa uma conclusão própria. A UNESCO também defende que avaliações na era da IA deem maior peso ao pensamento crítico, à criatividade, ao raciocínio ético e ao processo utilizado para chegar ao resultado, em vez de se concentrarem somente no produto final.
A discussão ultrapassa a sala de aula porque a capacidade de trabalhar criticamente com inteligência artificial começa a influenciar a formação do capital humano e, consequentemente, a produtividade das economias. Relatório da OCDE publicado em julho de 2026 mostra que a adoção de IA pelas empresas dos países da organização passou de cerca de 7% em 2021 para 20% em 2025, enquanto a falta de profissionais com as competências necessárias aparece entre as principais barreiras para ampliar o uso da tecnologia. A entidade alerta ainda que os ganhos econômicos podem ser distribuídos de maneira desigual quando trabalhadores e empresas não possuem formação adequada. Para Camilo, essa conexão torna o debate educacional mais urgente. “O aluno que hoje aprende apenas a pedir uma resposta para a inteligência artificial pode chegar ao mercado sabendo operar uma ferramenta, mas sem saber avaliar aquilo que ela produz. A vantagem competitiva estará justamente na capacidade humana de interpretar contexto, verificar informação, tomar decisões e utilizar a IA sem terceirizar o próprio raciocínio”, afirma. A IA, portanto, não elimina a função da escola. Ela aumenta a pressão para que a educação forme pessoas capazes de fazer justamente aquilo que uma resposta automatizada, por mais convincente que pareça, ainda não garante.
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