A felicidade da realização do sonho de entrar em uma universidade disputada foi o sentimento que predominou entre os aprovados na primeira chamada do vestibular 60+ da UnB, processo seletivo voltado a pessoas acima de 60 anos. Esse é o terceiro ano em que o vestibular 60+ ocorre, disponibilizando 224 vagas.
O resultado saiu na tarde de ontem, no Teatro de Arena do câmpus Darcy Ribeiro, na Asa Norte, e reuniu a maioria dos candidatos acompanhados de filhos, companheiros e até netos.
Lígia de Fátima Silva, de 66 anos, passou para o curso de turismo e, pela primeira vez, ingressa em uma universidade, com total incentivo das filhas. “Essa é a área que mais me interessa e que se aproxima do meu trabalho. Vou me dedicar bastante para ser uma boa profissional”, afirmou.
Ela concluiu o ensino médio mais tarde, depois de algumas interrupções. Quando soube do certame da Universidade de Brasília, tentou o ingresso duas vezes. Este ano, com uma boa pontuação, conseguiu entrar e destacou o desejo de continuar ativa profissionalmente. “Hoje, a qualidade de vida é melhor e a expectativa de vida também aumentou”, disse. “Eu tenho a esperança de ainda ser uma profissional, estudar, trabalhar na minha área e estudar mais, me aperfeiçoar, me atualizar”, completou.
Luana, analista de sistemas de 29 anos e uma das filhas da aprovada, também é aluna da instituição e vibrou com a vitória da mãe. “Fui a primeira pessoa a entrar na UnB, e sei o tanto que o estudo muda a nossa vida. Quando apareceu essa oportunidade, eu a incentivei muito a entrar, trouxe em todos os vestibulares, a acompanhei e vi ela conquistar isso agora. Isso é muito importante, porque ela abdicou de muita coisa para nos criar e agora está aqui, não desistiu e mostra que é um exemplo grande, que não tem idade para irmos atrás dos nossos sonhos”, descreveu.
**Surpresa**
Enquanto isso, Marlene de Fátima Andrade, 67, comemorou a aprovação no curso de museologia, embora não acreditasse na possibilidade. “Fiz a prova no dia do meu aniversário, em 14 de dezembro. Brinquei que poderia ganhar esse presente, mas, de fato, não esperava”, celebrou a aposentada.
Ela contou que a escolha para museologia foi aleatória e, ao mesmo tempo, porque queria estudar sobre algum tema diferente do habitual. “Agora, eu vou fazer o curso com todo carinho e vou me formar ali quando eu tiver 70 anos, mas com certeza vou me graduar.”
De folga do trabalho, a bombeira militar Luiza, filha de 36 anos de Marlene, mostrou-se orgulhosa ao falar sobre o resultado e a dedicação da mãe. “Fico muito feliz, porque é uma conquista muito importante, ela se esforçou, estudou da maneira dela, conseguiu olhar as redações. Principalmente pela prova ter caído no aniversário dela, foi uma surpresa, então, foi um dia muito importante e legal, gostei bastante”, disse, emocionada.
A aposentada Odine Ferreira de Souza, 65, foi a primeira colocada para ciências ambientais, após realizar o vestibular pela segunda vez. “Quero fazer um bom curso, gostar do que vou aprender e me manter com a mesma alegria com que estou entrando”, antecipou.
Odine se considera uma pessoa inquieta. A vontade de ingressar em uma faculdade surgiu quando percebeu que, mesmo fazendo atividades físicas para se ocupar, sentia que faltava algo. Ela descobriu o vestibular 60+ pela UniSer, projeto de extensão da UnB. “Fiz isso em busca de um envelhecer mais produtivo e, de certa forma, mostrando o meu potencial. Porque nós, pessoas com mais de 60 anos, temos um grande potencial e que precisa ser preenchido, demonstrado, praticado, vivido”, afirmou. “Eu necessitava manter essa qualidade de vida, que já era boa, mas precisava ser preenchida de alguma forma”, acrescentou.
Ela acompanhou a divulgação do resultado ao lado do marido e do filho. A conquista será comemorada em família. “Meu filho cursa ciências biológicas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e meu marido sempre me apoiou. Com certeza vamos celebrar juntos”, finalizou.