Duas trilhas fossilizadas encontradas em Turvo, no Sul catarinense, revelam pegadas maiores do que as já conhecidas na região e ampliam o que a ciência sabe sobre os parentes dos mamíferos
Victória Veiga Chapecó
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Muito antes de Santa Catarina ter a paisagem conhecida atualmente, animais de diferentes portes percorriam um ambiente marcado por dunas e condições desérticas. Parte dessa história ficou registrada em rochas no Sul do Estado e, agora, ajuda pesquisadores a compreender melhor a evolução dos mamíferos e de seus parentes próximos.
Em Turvo, duas trilhas fossilizadas apresentam dimensões superiores às de outros rastros do mesmo grupo já descritos na Formação Botucatu. A análise, publicada na revista científica Journal of South American Earth Sciences, aponta que esses animais podiam alcançar portes maiores do que o registro tradicional sugeria e amplia as evidências sobre a diversidade da fauna que viveu no Cretáceo Inferior.
As pegadas foram preservadas em duas placas de arenito provenientes da pedreira AR Mineração, localizada no município de Turvo, no Sul catarinense. Os exemplares integram a coleção científica do Laboratório de Paleontologia da Faculdade de Geologia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
O material chamou a atenção dos pesquisadores por apresentar impressões maiores do que todas as pegadas atribuídas a Mammaliaformes descritas anteriormente na Formação Botucatu.
A descoberta acrescenta novos elementos ao estudo dos vertebrados que habitaram a região há milhões de anos, especialmente porque a formação geológica apresenta poucos restos de esqueletos desses animais.
A paisagem catarinense passou por profundas transformações ao longo do tempo geológico. Na época em que os rastros foram produzidos, a região integrava um extenso ambiente de dunas associado ao paleodeserto de Botucatu.
As condições que existiam naquele cenário favoreceram a preservação de marcas deixadas por animais sobre o substrato arenoso. Com o passar de milhões de anos e os processos responsáveis pela formação das rochas, algumas dessas impressões permaneceram registradas no arenito.
A Formação Botucatu, situada na Bacia do Paraná, constitui uma importante fonte de informações sobre esse ambiente antigo. Suas rochas permitem investigar a presença e o deslocamento de vertebrados mesmo quando os restos corporais dos animais não foram preservados.
A análise morfológica identificou impressões com quatro dedos, caracterizadas por formatos curtos e arredondados. A disposição dos rastros também foi considerada pelos pesquisadores na interpretação do modo de deslocamento dos animais.
Em conjunto, essas características são compatíveis com a passagem de um animal quadrúpede, que utilizava os quatro membros para caminhar.
As pegadas preservam informações que não dependem exclusivamente da existência de ossos ou dentes fossilizados. Ainda assim, sua interpretação exige cuidado, pois as condições do solo e os processos que atuaram sobre a superfície podem modificar a aparência original das marcas.
Embora os rastros apresentem características úteis para a investigação científica, eles não revelam, por si só, a identidade exata do animal que os produziu.
A preservação das pegadas depende de fatores como a consistência e a umidade do substrato, além das alterações sofridas pela rocha ao longo do tempo. Essas condições podem limitar a quantidade de detalhes anatômicos disponíveis para análise.
Por esse motivo, a identificação se concentra nas características das impressões e em sua comparação com outros registros fósseis. O estudo descreve um tipo de rastro, mas não confirma a descoberta de uma nova espécie.
Os pesquisadores atribuíram os vestígios a um provável integrante de Mammaliaformes, grupo que engloba os mamíferos e seus parentes evolutivos próximos.
Esses animais fazem parte da história evolutiva que antecedeu e acompanhou o surgimento das diferentes linhagens de mamíferos. Durante o Mesozoico, período que inclui a era dos dinossauros, esse conjunto apresentou uma diversidade maior do que a ideia tradicional de animais exclusivamente pequenos poderia sugerir.
As marcas também foram classificadas na icnofamília Chelichnopodidae. A categoria reúne pegadas com características morfológicas semelhantes e não corresponde necessariamente a uma família biológica dos animais responsáveis pelos rastros.
O destaque da descoberta está na dimensão das impressões. De acordo com o estudo, as duas trilhas representam as maiores pegadas semelhantes às de mamíferos documentadas no Cretáceo Inferior de Gondwana.
O antigo supercontinente Gondwana reunia terras que posteriormente deram origem a áreas da América do Sul, da África, da Antártida, da Austrália e de outras regiões. A comparação com registros desse território geológico amplia a relevância do material encontrado em Santa Catarina.
Na própria Formação Botucatu, já existiam outros rastros atribuídos a Mammaliaformes. Os novos exemplares, porém, superam em tamanho os registros anteriormente descritos nessa unidade geológica.
Os primeiros mamíferos e seus parentes próximos são frequentemente associados a animais de pequeno porte. Essa característica marcou parte das interpretações sobre a evolução do grupo, mas descobertas de fósseis corporais e pegadas têm demonstrado que a história foi mais diversificada.
Os rastros de Turvo acrescentam evidências a essa discussão. Segundo os autores, o resultado sugere que portes corporais maiores surgiram mais cedo e com maior frequência do que se reconhecia anteriormente.
A conclusão não significa que todos esses animais fossem grandes. Ela indica que a variedade de tamanhos entre os representantes do grupo pode ter sido mais ampla do que os registros disponíveis permitiam estabelecer.
As marcas preservadas nas rochas são conhecidas como icnofósseis. Diferentemente dos fósseis corporais, que correspondem a partes do próprio organismo, elas registram atividades realizadas por animais, como caminhar ou se deslocar sobre determinado terreno.
No caso da Formação Botucatu, esse tipo de evidência é particularmente importante porque os restos esqueléticos são raros. As pegadas oferecem informações complementares para investigar quais animais passaram pelo ambiente e como se movimentavam.
A análise conjunta de diferentes rastros também permite comparar formas, dimensões e padrões de deslocamento, ampliando as possibilidades de interpretação da fauna pré-histórica.
Apesar da relevância dos exemplares, as pegadas não permitem calcular com precisão o tamanho corporal dos animais nem determinar a espécie responsável pelas marcas.
O estudo também não estabelece que esses rastros tenham sido produzidos pelos maiores mamíferos de toda a era dos dinossauros.
A conclusão se refere especificamente ao tamanho das pegadas semelhantes às de mamíferos documentadas no Cretáceo Inferior de Gondwana e aos registros anteriores da Formação Botucatu.
Novas descobertas e comparações com outros fósseis poderão ajudar a esclarecer a diversidade de formas e tamanhos dos Mammaliaformes e a evolução de seus modos de vida.
Os exemplares de Turvo mostram como vestígios preservados no território catarinense podem contribuir para questões mais amplas da paleontologia.
Mesmo sem identificar a espécie que deixou as marcas, os pesquisadores conseguiram ampliar o conhecimento sobre o porte e a locomoção de animais que viveram há milhões de anos.
Em conjunto com os fósseis corporais e outros registros geológicos, esses vestígios ajudam a reconstruir a diversidade da vida em ambientes muito diferentes dos atuais.
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Victória Veiga Repórter
Victória Veiga é repórter do portal ND Mais na redação de Chapecó, de onde escreve matérias sobre o que há de mais importante no Oeste de Santa Catarina. Acompanha e assina notícias sobre segurança pública, trânsito, agronegócio e infraestrutura, cobrindo Chapecó, Concórdia, Xanxerê, São Miguel do Oeste e cidades do Meio-Oeste e Extremo-Oeste catarinense. Formada em Jornalismo pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), atua na área desde 2024 e tem experiência em jornal impresso e digital, além de atuação na área de marketing, o que contribui para uma comunicação estratégica e multiplataforma. Leia mais ▾
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