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Esta matéria integra o Jornal Defesa em FocoVol. 1, No. 32 (2026) — publicado em 3 de outubro de 2026. Abrir o PDF deste númeroA ampliação da presença feminina na ciência brasileira não depende apenas de aumentar o número de mulheres que ingressam nas universidades ou nos programas de pós-graduação. O desafio passa, cada vez mais, por compreender o que acontece depois desse ingresso: quantas conseguem permanecer na carreira, quantas avançam para posições de liderança, quem coordena grandes projetos, quem acessa financiamento, quem participa de conselhos e comitês e quem efetivamente chega aos espaços onde são definidas as prioridades da ciência, da tecnologia e da inovação no país.Notícias Relacionadas:Os Jogos de Guerra Profissionais como Instrumento para o Desenvolvimento…SEGURANÇA PÚBLICA MUNICIPAL: A Necessidade Estratégica da Implantação de…Do tabuleiro à resiliência sistêmica: a transformação dos jogos de…
Essa perspectiva esteve no centro do Seminário Integrado sobre Mulheres na Ciência, realizado em 1º de outubro, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). O encontro reuniu pesquisadoras, gestoras, docentes e representantes de diferentes instituições para discutir equidade, diversidade e inclusão no sistema científico, avaliando não apenas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao longo da trajetória profissional, mas também os mecanismos capazes de transformar políticas de incentivo em instrumentos permanentes de acesso, permanência e progressão.
Entre as instituições representadas esteve a Marinha do Brasil, por meio da Capitão de Fragata Andreia Carneiro da Silva, do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais (CTecCFN). A participação de uma oficial superior em um fórum dedicado à presença feminina na ciência acrescentou ao debate uma dimensão relevante para instituições nas quais conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico, inovação e atuação profissional especializada se encontram de maneira cada vez mais intensa.
Marinha integra debate sobre experiências, desafios e políticas de fomento
A Capitão de Fragata Andreia Carneiro da Silva participou da mesa-redonda “Mulheres na Ciência: experiências, desafios e políticas de fomento”, coordenada pela professora Catia Antonia da Silva, da Uerj. Também integraram a discussão Karín Menéndez Delmestre, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), e Letícia de Oliveira, presidente da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da FAPERJ (CPEDI/FAPERJ).
Dentre as discussões abordadas, foi debatido de maneira ampla as desigualdades de gênero presentes na carreira científica e destacaram a persistência da sub-representação feminina em determinados campos, especialmente nas áreas tecnológicas, nas engenharias e em setores historicamente associados à presença masculina.
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É justamente nesse ponto que a presença institucional da Marinha ganha importância simbólica e profissional. Ciência e tecnologia ocupam papel crescente nas atividades de Defesa, seja no desenvolvimento de sistemas, sensores, comunicações, plataformas, cibernética, engenharia, pesquisa aplicada ou inovação. A participação feminina nesses ambientes não se resume, portanto, à questão numérica: envolve oportunidades de formação, continuidade das trajetórias profissionais e acesso a posições de responsabilidade em áreas diretamente associadas ao desenvolvimento científico e tecnológico.
O “efeito tesoura” e a perda de mulheres ao longo da carreira
Uma das questões centrais discutidas no seminário foi o chamado “efeito tesoura”, expressão utilizada para descrever um fenômeno recorrente no sistema científico: embora mulheres apresentem elevada participação em diferentes etapas da formação universitária e da pós-graduação, essa presença diminui gradualmente à medida que a carreira avança.
Segundo a síntese registrada na ata, a redução torna-se particularmente visível nos níveis mais elevados de senioridade, liderança, coordenação de grandes projetos e participação nos processos de tomada de decisão. Isso significa que uma análise baseada apenas no número de mulheres matriculadas em cursos superiores ou presentes em programas científicos pode produzir uma percepção incompleta da realidade. Mais importante do que saber quantas ingressam é compreender quantas conseguem permanecer, progredir e ocupar posições capazes de influenciar a produção de conhecimento e os rumos das instituições.
Essa mudança de perspectiva amplia a própria definição de representatividade. Não basta que as mulheres estejam presentes nas etapas iniciais da formação científica; é necessário avaliar se encontram condições para construir carreiras duradouras, coordenar equipes, liderar laboratórios, obter recursos, propor projetos e integrar estruturas decisórias. Ao fazer essa distinção, o seminário deslocou o debate de uma lógica meramente quantitativa para uma análise estrutural sobre permanência, oportunidade e progressão.
A formação de futuras cientistas começa antes da universidade
As discussões também chamaram atenção para um estágio anterior da trajetória científica: o momento em que meninas e jovens começam a formar suas próprias referências sobre profissão, pesquisa e futuro acadêmico. A ata registra que uma maior participação feminina na ciência exige intervenções antes mesmo da entrada na universidade, especialmente por meio da aproximação de estudantes com ciência, tecnologia, engenharia, inovação e iniciativas de formação científica.
Nesse contexto, a existência de modelos femininos de referência foi considerada particularmente relevante. Ver mulheres ocupando espaços científicos, tecnológicos e de liderança pode contribuir para que meninas consigam imaginar a si próprias nesses mesmos ambientes. O desafio, portanto, não consiste apenas em oferecer uma atividade pontual ou uma experiência isolada, mas em construir trajetórias de formação capazes de acompanhar essas jovens e oferecer continuidade ao interesse despertado nas etapas iniciais.
Também foi registrada a importância de ouvir as próprias estudantes e beneficiárias dos programas. Essa escuta permite identificar dificuldades que nem sempre aparecem nos indicadores tradicionais e compreender quais ações realmente produzem resultados. Ao incorporar a experiência das participantes ao processo de avaliação, políticas públicas podem deixar de funcionar apenas como instrumentos de concessão de recursos e passar a ser aperfeiçoadas com base em evidências sobre sua efetividade.
Maternidade, cuidado e desigualdade de condições
Outro eixo significativo do seminário foi o impacto da maternidade sobre a trajetória científica. Gestação, nascimento de filhos, licença e responsabilidades relacionadas ao cuidado podem ocorrer exatamente em etapas decisivas para consolidação profissional, publicação de trabalhos, obtenção de bolsas, construção de redes acadêmicas e participação em processos seletivos.
Essas circunstâncias podem afetar indicadores tradicionais de produtividade e, por isso, devem ser consideradas nos mecanismos de avaliação científica. Entre as propostas debatidas estiveram a ampliação das janelas temporais utilizadas nas avaliações, a consideração explícita dos períodos relacionados à maternidade, o fortalecimento de políticas voltadas à permanência das mães na carreira e a adoção de instrumentos institucionais capazes de reduzir desigualdades decorrentes das responsabilidades de cuidado.
A discussão evidencia uma questão importante: igualdade formal de critérios não significa necessariamente igualdade de condições. Quando mecanismos de avaliação ignoram circunstâncias concretas que interferem no ritmo de produção científica, podem acabar reproduzindo desigualdades que já existem fora do processo avaliativo. Para o seminário, portanto, promover equidade exige compreender de que maneira as trajetórias profissionais são construídas e quais fatores podem interrompê-las ou retardá-las.
Mulheres não formam um grupo homogêneo
O encontro também aprofundou a discussão sobre interseccionalidade, reconhecendo que as experiências femininas no sistema científico não são uniformes. Raça, condição socioeconômica, território, maternidade, deficiência e área de conhecimento podem produzir contextos muito diferentes de ingresso, permanência e progressão profissional.
Esse entendimento amplia a complexidade das políticas de gênero. Uma estatística global sobre participação feminina pode esconder, por exemplo, dificuldades específicas enfrentadas por mulheres de determinados grupos sociais ou regiões. Por isso, a ata defende uma análise mais detalhada das desigualdades internas, capaz de revelar quem efetivamente consegue acessar oportunidades e quais grupos permanecem sub-representados.
A incorporação dessa perspectiva também influencia a formulação de políticas de fomento. Em vez de tratar todas as mulheres como um único conjunto, torna-se possível identificar barreiras cumulativas e desenvolver mecanismos mais direcionados. A própria diversidade de experiências passa, assim, a ser considerada elemento relevante para compreender o funcionamento do sistema científico.
Avaliar não apenas quem recebe recursos, mas o que o financiamento transforma
O seminário dedicou atenção especial ao papel das agências de fomento e à necessidade de ampliar os critérios utilizados para avaliar os resultados de políticas públicas. A discussão partiu de uma pergunta aparentemente simples, mas de grande alcance: qual transformação foi efetivamente produzida pelo recurso investido?
Não basta observar quem recebeu financiamento. É necessário acompanhar os resultados posteriores, incluindo produção científica, formação de recursos humanos, inovação, impacto social, continuidade dos projetos, transformação institucional, repercussão nas comunidades atendidas e trajetória de pesquisadores e estudantes beneficiados.
Essa lógica exige que o sistema de fomento seja capaz de olhar para além da etapa inicial de seleção. Conhecer o perfil de quem submete propostas e de quem recebe recursos é importante, mas o acompanhamento posterior é igualmente necessário para identificar se determinada política conseguiu alterar trajetórias, ampliar oportunidades, formar novas pesquisadoras ou produzir efeitos duradouros nas instituições.
A abordagem transforma a avaliação em ferramenta de aprendizado institucional. Quando os resultados são acompanhados de forma sistemática, programas podem ser corrigidos, fortalecidos ou redesenhados com base em evidências, reduzindo o risco de que políticas de inclusão permaneçam apenas como iniciativas isoladas ou sem continuidade.
Representatividade também significa ocupar os espaços de decisão
Outro ponto de destaque foi a participação feminina nas estruturas onde decisões científicas são tomadas. O debate abordou a presença de mulheres em posições de gestão e coordenação, comitês, bancas, diretorias, conselhos, órgãos assessores, elaboração de editais e avaliação de propostas.
A presença não deve ser entendida apenas como uma questão estatística. A composição dos espaços decisórios pode influenciar quais problemas recebem atenção, quais perguntas são consideradas prioritárias e quais áreas passam a ser valorizadas nas políticas de pesquisa e inovação. A diversidade, portanto, pode interferir diretamente na própria agenda científica.
Esse aspecto ajuda a compreender por que o debate sobre mulheres na ciência ultrapassa a formação acadêmica. A questão não é somente ampliar o número de pesquisadoras, mas garantir que elas também estejam presentes nos ambientes responsáveis por definir prioridades, distribuir recursos, avaliar projetos e estabelecer diretrizes para o desenvolvimento científico e tecnológico.
Pesquisa aplicada, tecnologia e inovação também precisam ser valorizadas
As discussões realizadas no seminário também apontaram limitações dos modelos tradicionais de avaliação científica. Métricas baseadas predominantemente em publicações e citações continuam tendo importância, mas nem sempre são suficientes para medir contribuições ligadas à pesquisa aplicada, à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
A necessidade de reconhecer resultados como produtos, processos, tecnologias, propriedade intelectual, transferência de conhecimento, inovação e impactos econômicos ou sociais. Também foi debatida a possibilidade de utilizar instrumentos narrativos capazes de contextualizar trajetórias e revelar contribuições que indicadores exclusivamente quantitativos não conseguem representar.
Essa discussão possui especial relevância para centros tecnológicos, instituições de pesquisa aplicada e organizações ligadas à Defesa, nas quais parte importante da produção científica pode resultar em soluções, sistemas, processos e tecnologias cuja contribuição não se expressa necessariamente pelo mesmo conjunto de indicadores utilizado em áreas essencialmente acadêmicas.
Assédio e vulnerabilidade também aparecem como barreiras
Entre os temas registrados durante a plenária final apareceu ainda a questão do assédio, abordada sob duas perspectivas. De um lado, situações enfrentadas por cientistas dentro das universidades ou durante o exercício de suas atividades de pesquisa; de outro, a vulnerabilidade social, econômica e política de meninas e mulheres atendidas por projetos científicos.
A preocupação levou participantes a sugerirem à FAPERJ a possibilidade de criação de uma estrutura psicossocial de acompanhamento.
A inclusão desse tema amplia o significado das políticas de permanência. Criar oportunidades de ingresso é importante, mas a continuidade de uma trajetória científica também depende da existência de ambientes institucionais nos quais pesquisadoras e estudantes encontrem condições adequadas para desenvolver seu trabalho, denunciar problemas e receber apoio quando necessário.
Do diagnóstico à construção de políticas permanentes
Ao final do encontro, uma série de encaminhamentos consolidou a intenção de transformar as discussões em instrumentos de aperfeiçoamento das políticas de ciência e tecnologia. Entre as propostas estão ampliar a produção de dados sobre gênero, raça, carreira e área de conhecimento; acompanhar quem submete projetos, quem recebe financiamento e quem permanece no sistema; desenvolver indicadores de resultado e impacto; incorporar diferentes trajetórias aos processos de avaliação; ampliar ações destinadas a meninas e jovens talentos; e fortalecer a presença feminina nos espaços de decisão.
Também foram defendidos mecanismos permanentes de escuta dos beneficiários, maior valorização da pesquisa aplicada e tecnológica e articulação com instituições como CNPq, CAPES, FINEP e outras fundações estaduais de amparo à pesquisa. A intenção é fazer com que práticas de equidade, diversidade e inclusão deixem de depender exclusivamente de iniciativas isoladas e possam ser incorporadas progressivamente ao funcionamento regular do sistema de ciência, tecnologia e inovação.
Essa mudança de enfoque ao registrar que a questão já não deve ser apenas quantas mulheres estão participando, mas também quem consegue entrar, quem permanece, quem progride, quem lidera, quem recebe financiamento e quais barreiras continuam existindo.
Mais mulheres na ciência significa ampliar o potencial científico do país
A principal mensagem deixada pelo seminário é que promover maior participação feminina na ciência não deve ser compreendido apenas como uma política de representação. Trata-se de ampliar a capacidade do sistema científico de identificar, formar e preservar talentos que, diante de barreiras institucionais, sociais ou profissionais, podem acabar se afastando antes de alcançar seu pleno potencial.
Ao participar desse debate por meio da Capitão de Fragata Andreia Carneiro da Silva, a Marinha do Brasil também esteve representada em uma discussão que guarda relação direta com o futuro de áreas nas quais ciência, tecnologia, inovação e qualificação profissional assumem importância crescente. A presença de uma oficial superior em uma mesa dedicada às trajetórias femininas ajuda a demonstrar que esse debate alcança ambientes muito além da universidade e envolve instituições que dependem cada vez mais de conhecimento técnico e científico especializado.
Mais do que discutir números, o seminário evidenciou a necessidade de construir um sistema capaz de acompanhar trajetórias completas. O ingresso de mulheres na ciência representa apenas o primeiro passo. O desafio maior está em criar condições para que essas pesquisadoras permaneçam, produzam conhecimento, desenvolvam tecnologias, liderem projetos, participem das decisões e contribuam plenamente para o desenvolvimento científico, tecnológico e institucional brasileiro.
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