Caminhar pelo Centro da cidade do Rio de Janeiro é sempre um exercício de nostalgia. Nesta semana, eu atravessava a Avenida Rio Branco, na direção da Rua da Assembleia, quando me deparei com uma fachada conhecida. Fazia tempo. Fazia tempo que não entrava no número 35 da Rua da Ajuda.
Por eras, ali se alojou a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj). O edifício tem uma entrada peculiar na qual um par de curtas escadas rolantes leva a um promontório com elevadores. No início de carreira subi muitas vezes por ali até o 16º andar.
A sede da CBF não era muito distante — um prédio estreito e antigo na Rua da Alfândega com portões de ferro que tinham o escudo da entidade pintado. Nos dois prédios trafegavam figuras folclóricas como Otávio Pinto Guimarães e seu cabelo penteado para trás; e Eduardo Vianna, o Caixa D’Água — dois dos mais longevos presidentes da Ferj antes do atual Rubens Lopes.
Nesse tempo, Lula era o sapo barbudo que Leonel Brizola tinha tentado enfiar goela das elites abaixo. Flávio Bolsonaro era o filho pequeno de um deputado carioca visto como radical. Se alguém dissesse então que ambos estariam disputando a presidência em 2026... provocaria risos:
— O Lula? Contra o filho do Bolsonaro? Interna.
Eram tempos em que o poder da Ferj e da CBF era maior que o dinheiro que arrecadavam. Anos depois, ambas enricaram. A federação carioca se mudou para um prédio perto da Uerj. A confederação comprou um edifício inteiro na Barra da Tijuca, que foi batizado com o nome de Edifício José Maria Marin em 2014. E desbatizado depois que Marin foi preso na Suíça e puxou cadeia nos EUA.
Olhando hoje... é como se nossos malvados folclóricos fizessem falta. O mundo era mais divertido quando os vilões pareciam personagens de ficção. Tinha menos dedo na cara, menos indicadores raivosos apontados em todas as direções. Odiava-se menos, lacrava-se menos, cancelava-se menos. Agora estamos aí na nossa armadilha polarizada capaz de fazer o repórter sentir falta da clareza de um Caixa D’Água:
— Acordo, eu descumpro. Trato, eu rasgo. Opinião pública pra mim deve ser tratada na base da metralhadora!
Eram tempos em que o absurdo soava como alívio cômico. Tínhamos até um cartola chamado Onaireves, Severiano ao contrário, que conseguiu a façanha de ser preso por desviar dinheiro da federação paranaense para uma igreja que ele mesmo criou.
Agora enxergamos um Voldemort a cada esquina, um Darth Vader em cada palanque e ai de ti que vislumbra nuance em vez de verdades absolutamente absolutas. Removam-se os tons de cinza. Por vezes quase invejo a simplicidade do patriota do caminhão. Dá vontade de subir na boleia da realidade e dizer: me leva ou me atropela.
Oremos ao disco voador mais próximo, bebamos o vinho desinfetado, celebremos a mentira que nos favorece e finjamos que o pau oco do supremo altar não é dos santos — é apenas a madeira de cara brasileira. O que vemos no espelho é nossa imagem. Quando se sente saudade de Caixa D’Água... é porque o tempo anda passando rápido demais.
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