Denílson Araújo de Oliveira é professor do Departamento de Geografia Humana (DCH), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). ministrará a palestra “Geografias Negras” na terça-feira, 13, às 18h30 no Auditório Tito Sena, no Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), como parte da programação da Semana Integra Faed. A palestra é aberta ao público, sem necessidade de inscrição.
O pesquisador é graduado (licenciatura e bacharelado), mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Fundador e coordenador do grupo “Negra - Núcleo de Estudo e Pesquisa em Geografia Regional da África e da Diáspora”. Publicou em 2025 o livro “Geografias Negras do Genocídio Negro Brasileiro: Enfrentamentos à Negritude”, pela editora Consequência.
A Assessoria de Imprensa da Faed conversou com o professor sobre a abordagem que ele vai utilizar na palestra, o início de seus estudos sobre geografias negras e o que elas são e também sobre o seu livro.
Confira a entrevista:
Ascom Faed: Quais serão os temas centrais da palestra?
Prof. Denílson: Os temas que vou apresentar na palestra envolvem a discussão da questão racial a partir da Geografia.
Essa preocupação vem sendo construída desde os tempos da graduação, especialmente pelo fato de que o debate sobre a questão racial na Geografia, de forma crítica, é um debate muito escasso. E esse debate aprofunda a discussão não só nos subcampos da Geografia, mas permite também que possamos compreender como o capitalismo mobiliza diferentes marcadores sociais no seu processo de produção e reprodução.
Ascom Faed: Qual tom será adotado?
Prof. Denílson: Vou partir de dois pressupostos iniciais, pensar que a questão racial envolve compreender que ela sempre precisa ser periodizada e regionalizada. Ou seja, ela não é a mesma nos anos 1970 e em 2026. Ela vai mudando com o tempo.
Há termos que eram utilizados no passado, que hoje já não são mais utilizados. Então, o racismo é um grande camaleão, assim como a luta antirracista. A luta antirracista também muda com os lugares, por isso que falo em regionalizada.
E sigo as ideias de Frantz Fanon [filósofo das Antilhas Francesas, influente nos estudos do pós-colonialismo], quando ele diz para que tenhamos um cuidado em trabalhar o racismo medindo intensidades.
Ele diz que isso é um grande equívoco e eu concordo com ele, ou seja, dizer que o racismo é mais forte em algum lugar e aqui é um racismo mais fraco. Isso é um total equívoco. Racismo é racismo. Não existe dizer que o racismo no Brasil é mais brando que nos Estados Unidos ou na África do Sul, porque aqui não teve apartheid. Racismo é sempre um padrão de poder e de violência que produz hierarquias e desigualdades, que gera morte.
Então, não existe racismo fraco ou racismo forte. A questão racial muda no tempo e muda no espaço. É o que quero compreender nas minhas pesquisas.
Ascom Faed: Como surgiu o interesse por essa área da Geografia? Você iniciou o curso querendo algo relacionado?
Prof. Denílson: Passei a graduação estudando a cultura hip hop, fiz a minha monografia e depois fiz a minha dissertação de mestrado também. E no doutorado eu tento explicar como que o racismo se escrevia no espaço urbano, pensar o crescimento da violência contra jovens negros, e contra negros de forma geral nas áreas centrais, nos morros e nas favelas a partir das operações policiais.
No pós-doutorado eu vi a necessidade de trazer esse debate com uma forma mais direta, para entender exatamente a questão da política de segurança e a questão racial e eu entrei no debate do que depois chamou-se de “geografias negras”.
Ascom Faed: Como é estudar as geografias negras no Brasil? Quais os pontos mais estudados e aqueles que merecem maior atenção?
Prof. Denílson: Começo a querer entender como se dá essa espacialidade das relações raciais. Recentemente eu tenho escrito sobre isso, para entender os modelos urbanos, tenho analisado que no Brasil, que existem vários tipos de cidade, origem de cidades, não não são as mesmas.
Se a gente vai verificar as chamadas cidades, que eu chamo de cidades de origem colonial escravista, ou seja, cidades que foram criadas no contexto colonial escravista no Brasil, ou seja, dos séculos XV, XVI, até o século XIX, em que o racismo era um elemento central no processo de produção e reprodução, das formas espaciais.
Mas no Brasil nós não temos apenas cidades coloniais de heranças escravistas. Nós tivemos também cidades que foram criadas ou remodeladas no final dos séculos XIX e XX, início do século XX, com as chamadas políticas de imigração que tinham como centro branquear o território, eu tenho chamado também de um branqueamento da paisagem.
Ascom Faed: Quais os principais desafios na busca pela mudança nas teorias geográficas já estabelecidas?
Prof. Denílson: Vejo que há muitos desafios teóricos, epistemológicos e metodológicos para abordar esse tema. Primeiro que a Geografia sempre discutiu a questão racial, mas discutiu a questão racial a serviço do projeto de dominação. Importante lembrarmos que os chamados geógrafos fundamentais da geografia moderna lá no século XIX, muito de suas ideias serviram ao projeto imperialista.
Na obra “Antropogeografia” de Friedrich Ratzel [geógrafo alemão], há um capítulo exclusivo sobre raça, sobre as raças humanas, e o quanto as ideias de determinismo ambiental foram utilizadas também para produzir formas de classificação racial de grupos humanos, especialmente não europeus, o próprio colonialismo também nas Américas e as ideias geográficas a serviço de projetos de dominação, essas ideologias geográficas a serviço de projetos de dominação racial.
E isso é um elemento muito presente na Geografia, no que a gente poderia chamar de geografia tradicional ou até mesmo o debate na chamada geografia quantitativa com os modelos matemáticos que buscavam racionalizar e racionalizar o espaço, mas que reproduzia projetos de segregação racial.
Asom Faed: Como foi o processo de escrita do seu livro “Geografias Negras Do Genocídio Negro Brasileiro: Enfrentamentos À Antinegritude”? Quais informações mais chamaram a sua atenção e quais foram diferentes do esperado?
Prof. Denílson: A escrita do livro vem de uma pesquisa de longa duração, que começa lá no meio do doutorado e eu demorei 15 anos nela.
E nesse processo de 15 anos desse livro “Geografias Negras, do Genocídio Negro Brasileiro”, eu fiquei com uma preocupação de caráter teórico, de como a Geografia oferece contribuições para entender a violência urbana que cada vez mais atinge a população negra, fazendo o movimento negro, há décadas, chamar isso de genocídio negro brasileiro.
Essa pesquisa surge sobre isso e ela surge num contexto que eu tenho chamado de renascimento de epistemologias críticas anti-racistas, renascimento de epistemologias, de ontologias críticas anti-racistas. O que é que isso significa? Eu fui formado num modelo de universidade de forma crítica que era dominada pelo marxismo, um marxismo muito estruturalista e que pouco discutia a questão racial. E a gente verificava isso principalmente no marxismo entrando no Brasil. Porque o debate da questão racial no marxismo é extremamente antigo, mas pouco traduzido para a Geografia, ou seja, o chamado marxismo negro ou também o chamado teoria crítica da raça, que é também um debate de viés marxista, era pouco traduzido.
Essas traduções começam a ser realizadas e há uma pluralidade de epistemologias que também começam a ser permeadas dentro da universidade. A gente começa a verificar pensamento decolonial, estudos subalternos indianos, afrocentricidade, afropessimismo, afrofuturismo, epistemologias do sul, entre outros.
A gente começa a verificar também cada vez mais saberes nãodisciplinares entrando no debate da universidade que tem também um critério anti-racista, por exemplo, saberes de terreiro, saberes dos povos e comunidades tradicionais, saberes dos movimentos sociais como um todo. A pesquisa vai sendo feita dentro desse solo epistemológico, para usar uma expressão do Foucault [Michel Foucault, filósofo francês], em que, eu passei a construir, essa leitura que a Geografia poderia oferecer desse tema tão complexo que é a questão racial.
Assessoria de Comunicação da Udesc Faed
Isadora Bringhenti Serpa
E-mail: comunicacao.faed@udesc.br
(estagiária sob supervisão da jornalista Magali Moser)
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