Uma nova espécie de peixe pré-histórico que viveu há cerca de 254 milhões de anos, pouco antes da maior extinção em massa já registrada no planeta, foi descrita em um estudo científico com participação de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Encontrado no município de Alto Garças, em Mato Grosso, o fóssil apresenta um grau excepcional de preservação e permite ampliar o conhecimento sobre os ecossistemas que existiam na América do Sul antes de uma das maiores transformações da história da Terra. >
Os professores Valéria Gallo e Francisco J. de Figueiredo, do Departamento de Zoologia da Uerj, participaram da pesquisa, incluindo as etapas de investigação, análise morfológica, descrição e validação científica. A espécie recebeu o nome de Leolepis matogrossensis e representa um registro raro, em escala mundial, entre os peixes continentais do Permiano Superior. O estudo foi publicado em acesso aberto no periódico Journal of South American Earth Sciences, em julho.>
O animal pertence ao grupo dos peixes de nadadeiras raiadas, conhecidos como actinopterígios, que atualmente reúne cerca de 96% dos peixes vertebrados existentes, incluindo atum, salmão e bacalhau. Com aproximadamente 15 centímetros de comprimento, Leolepis tinha o corpo protegido por escamas resistentes compostas por dentina e esmalte, materiais também encontrados nos dentes humanos.>
A preservação do exemplar é um dos aspectos que tornam a descoberta especialmente importante. Muitos peixes dessa época encontrados no Brasil são conhecidos apenas a partir de dentes, escamas ou fragmentos de ossos. Já o fóssil de Leolepis mantém praticamente todo o corpo. Por isso, o estudo o considera o peixe de nadadeiras raiadas do Permiano mais bem preservado já encontrado em Mato Grosso, além de ser um registro incomum no cenário mundial.>
Antes da maior extinção do planeta>
Leolepis viveu durante o Permiano Superior, em um amplo sistema aquático continental associado a um antigo mar interior, em uma época em que América do Sul e África ainda estavam conectadas no supercontinente Gondwana.>
A partir do tamanho reduzido dos dentes, os pesquisadores estimam que o peixe se alimentava de pequenos invertebrados e plantas. Dessa forma, o fóssil ajuda a reconstituir parte do ecossistema que existia pouco antes da extinção Permo-Triássica, ocorrida há aproximadamente 252 milhões de anos.>
O episódio é considerado o maior evento de extinção em massa conhecido pela ciência. Cerca de 78% da vida terrestre e até 95% das espécies marinhas desapareceram durante o evento.>
Outro aspecto que chama a atenção na descoberta é a proximidade do local onde o fóssil foi encontrado com a cratera de impacto de Araguainha. O sítio fica a cerca de 50 quilômetros da estrutura, considerada a maior e mais bem preservada cratera desse tipo na América do Sul.>
A cratera foi formada pelo impacto de um asteroide estimado entre 2 e 3 quilômetros de diâmetro. A estrutura tem aproximadamente 40 quilômetros de extensão e sua formação ocorreu em um período próximo ao final do Permiano, quando Leolepis ainda fazia parte daquele ambiente.>
O impacto de Araguainha pode ter provocado mudanças ambientais importantes na região. No entanto, as evidências científicas disponíveis não permitem considerá-lo a principal causa da extinção em massa ocorrida no final do Permiano.>
Evolução dos peixes>
Além de identificar uma espécie até então desconhecida, o trabalho amplia o conhecimento sobre a evolução dos actinopterígios, grupo extremamente diversificado que atualmente domina a fauna de peixes. O achado contribui para compreender melhor a diversidade, a distribuição geográfica e a evolução desses animais durante o Permiano.>
A descoberta ganha ainda mais importância diante do conhecimento limitado sobre os peixes continentais do Paleozoico na América do Sul. A pesquisadora Valéria Gallo, que participou da descrição do fóssil, afirma que “por estar excepcionalmente preservado, o exemplar pode ajudar os pesquisadores a reconhecer a presença da espécie em outras áreas da Bacia do Paraná e a estabelecer novas correlações entre diferentes formações geológicas”.>
O fóssil foi coletado em 2005 pelo geólogo Léo Adriano de Oliveira, que posteriormente o disponibilizou para pesquisa e o depositou na Coleção Paleontológica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. O gênero Leolepis presta homenagem ao geólogo, enquanto matogrossensis faz referência ao estado onde o exemplar foi encontrado.>
Para os pesquisadores, o achado também reforça a possibilidade de que novos fósseis relevantes ainda sejam descobertos no Brasil e em outras regiões da América do Sul.>
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), do Natural History Museum, de Londres, e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), além de contar com outras colaborações internacionais.>
Participaram do trabalho Martha Richter, do Natural History Museum; Francisco J. de Figueiredo e Valéria Gallo, da Uerj; Raoul J. Mutter, pesquisador associado à área de paleontologia; Gerson Souza Saes, da UFMT; e Dharani Sundaran. A pesquisa também utilizou dados comparativos fornecidos pela pesquisadora Sam Giles, da University of Birmingham.>
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