O aleitamento materno pode ter efeitos que vão além dos primeiros meses de vida. Os estudos citados por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) indicam que a alimentação recebida na primeira infância e as condições às quais a mãe é submetida durante a lactação podem influenciar o desenvolvimento e o risco de doenças ao longo da vida.
O leite materno fornece nutrientes e componentes bioativos importantes para o crescimento e para a proteção imunológica do bebê. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento exclusivo até os seis meses e sua continuidade, com a introdução de alimentos complementares, até os dois anos ou mais.
Apesar das recomendações, menos da metade das crianças no mundo é amamentada exclusivamente até o sexto mês, segundo dados citados no artigo.
A relação entre amamentação e saúde futura também é estudada dentro do conceito conhecido como Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD). A teoria considera que fatores presentes durante fases críticas do desenvolvimento podem contribuir para o surgimento de determinadas condições de saúde posteriormente.
Os primeiros mil dias de leite materno
O período que vai da concepção aos dois anos de idade é considerado uma fase importante para o desenvolvimento do organismo. Neste intervalo, as alterações na alimentação e no ambiente podem interferir em processos que terão consequências posteriores.
Pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Endócrina do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Uerj, estudam há décadas a relação entre condições ocorridas durante a gestação e a lactação e o aparecimento de doenças crônicas. Entre os problemas investigados estão obesidade, diabetes e outras alterações metabólicas.
Os estudos experimentais apontam que a interrupção precoce do aleitamento pode estar associada a alterações hormonais relacionadas ao controle da ingestão de alimentos e do gasto energético. Em pesquisas com animais, o grupo investigou mecanismos que podem ajudar a explicar essa associação.
Contudo, os resultados não significam que a amamentação determine sozinha a saúde de uma pessoa na vida adulta. Os fatores genéticos, ambientais, sociais, alimentares e comportamentais também participam do processo.
Condições da mãe também entram na pesquisa
A composição do leite materno não é fixa e pode variar de acordo com diferentes condições maternas e com as necessidades do bebê. Os pesquisadores estudam como fatores como estresse, desnutrição e exposição a determinadas substâncias podem modificar a composição do leite e influenciar o desenvolvimento infantil.
Além disso, os cientistas também investigam possíveis relações entre essas exposições e um risco maior de alterações metabólicas, cardiovasculares e neurocomportamentais.
A área de pesquisa busca compreender justamente como acontecimentos ocorridos durante períodos críticos do desenvolvimento podem deixar efeitos duradouros.
Benefícios vão além da nutrição
A amamentação está associada a benefícios para a saúde infantil, incluindo proteção contra algumas infecções. Para a mãe, o aleitamento também pode estar relacionado à redução do risco de determinados tipos de câncer, como os de mama e ovário, além de contribuir para a recuperação após o parto.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é a formação do vínculo entre mãe e bebê. Por isso, a defesa do aleitamento não envolve apenas orientar a mulher sobre a importância de amamentar.
Os especialistas ressaltam a necessidade de oferecer condições para que ela consiga fazê-lo, especialmente diante de obstáculos como retorno ao trabalho, falta de apoio familiar, dificuldades de acesso a profissionais capacitados e desinformação.
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