A doutora em psicologia Karen Scavacini explica como a comunicação cuidadosa pode ajudar na redução do estigma.
Gerando resumo
Alerta: a reportagem abaixo trata de temas sensíveis. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
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Pelo terceiro ano consecutivo, o suicídio foi a principal causa de morte entre policiais civis e militares no País, superando as mortes em confrontos durante o serviço e também aquelas registradas fora do expediente.
Desde 2017, o número de policiais que morreram por suicídio cresceu 37,8%, enquanto as mortes violentas intencionais de agentes caíram 63,7%. Isso significa que o maior risco de morte para um policial brasileiro pode não estar diante de um criminoso armado.
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Os dados, divulgados quinta-feira, 23, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ampliam o debate sobre saúde mental e condições de trabalho nas corporações. Em São Paulo, o total de suicídios saltou de 17 para 30 entre 2024 e o ano seguinte (leia mais abaixo).
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que tem “fortalecido as políticas de promoção da saúde mental e valorização dos profissionais das forças de segurança, com o objetivo de garantir melhores condições de trabalho e aprimorar o atendimento prestado à população”.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirma que “atua tanto na qualificação das informações sobre a saúde desses profissionais quanto no desenvolvimento de ações de prevenção e atenção à saúde mental, em articulação com os Estados”.
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O suicídio é sempre um problema complexo e multifatorial. Isso fica claro nos depoimentos de familiares na pesquisa Desvendando os Suicídios Entre Profissionais de Segurança, da USP, UERJ, UFES e Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES).
Um policial militar do Espírito Santo trabalhava num território violento e convivia com “ocorrências pesadas, pessoas cortadas com facão, com faca, tiro”, de acordo com parentes. Ele tirava as fotos e às vezes compartilhava no grupo da família.
Além disso, o policial temia pela segurança de seus familiares depois de ter matado um criminoso numa favela. O policial tirou a própria vida há cinco anos. “Ele sofria aquele impacto de tudo aquilo ali que ele vivia”, diz o familiar.
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Em outro episódio, um bombeiro experiente provocou sua própria morte no dia em que sua função deixaria de existir. Ele era apaixonado pelo trabalho e gostava de ensinar os mais jovens. De uma semana para outra, ele soube que seu trabalho não existiria mais por uma reorganização interna. “Na segunda-feira ele não estaria mais naquela função, na sexta-feira ele se jogou na ponte”, conta um colega.
Ainda que tenha ocorrido uma redução nos casos de autoextermínio no último ano no País, de 126 para 110, a questão preocupa os especialistas.
“Apenas esse dado de 2025, de 110 suicídios, já teria de ser suficiente para um amplo debate público sobre o tema”, defende a professora Dayse Miranda, presidente do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) e organizadora do livro Por que os policiais se matam.
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Os dados são gravíssimos na avaliação de Raquel Antoniassi, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS). Mas, segundo a especialista, é importante compreendê-los dentro de um quadro mais amplo:
Os 110 policiais civis e militares que tiraram a própria vida no Brasil superam os 29 mortos em confronto durante o serviço no mesmo período. E também é superior aos 59 que morreram em confrontos ou outras lesões não naturais durante a folga. No ano anterior, os números seguiam a mesma lógica: 126 suicídios, 84 mortes fora de serviço e 32 em serviço.
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Os dados ajudam a questionar uma das imagens mais arraigadas sobre a profissão policial: a de que o perigo está apenas no enfrentamento direto ao crime. Nos últimos anos, os levantamentos mostram que a vitimização desses profissionais é mais complexa.
O foco das análises sempre esteve nas mortes ocorridas durante a folga. A explicação parecia fazer sentido. Muitos policiais complementam a renda com os chamados “bicos”, permanecem armados o tempo todo e convivem com a expectativa de intervir em qualquer situação, mesmo fora do expediente. A ideia de que “o policial nunca deixa de ser policial” ajuda a explicar por que tantos morriam quando, oficialmente, já não estavam trabalhando.
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Nos últimos anos, a fotografia mudou. O suicídio passou a ocupar o centro da discussão. Se antes a preocupação era entender por que tantos policiais morriam nas horas de folga, agora a pergunta é outra: o que acontece nas corporações para que o autoextermínio tenha se tornado a principal causa de morte desses profissionais?
Essa mudança também aparece na série histórica do levantamento. Desde 2017, o número de policiais que morreram por suicídio cresceu 37,8%, enquanto as mortes violentas intencionais de agentes despencaram 63,7%.
Inúmeros fatores contribuem para esse cenário, na visão de Rodolfo Queiroz Laterza, presidente da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol do Brasil).
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“Más condições de trabalho, remuneração defasada, má gestão institucional que direciona para o policial a responsabilidade por problemas mais abrangentes da segurança pública e o nível de exposição a risco contínuo que estes profissionais se submetem”, enumera.
A queda de suicídios (de 126 para 110 casos) em 2025 foi um movimento puxado principalmente pela Polícia Militar, que passou de 107 para 89 registros. Entre policiais civis, no entanto, houve aumento, de 19 para 21 mortes.
Os dados mostram que a melhora nacional esconde realidades bastante distintas entre as corporações, além de diferenças entre os Estados:
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“Os dados revelam, de forma categórica, o preocupante cenário de saúde mental em ambas as corporações, revelando um tema que não pode mais ser colocado em segundo plano no debate de segurança pública em nosso Estado”, afirma Mauro Caseri, ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo.
A Polícia Militar de São Paulo diz que “oferece assistência especializada aos agentes da ativa e da reserva por meio do Sistema de Saúde Mental (SISMen) que disponibiliza atendimento psicossocial no Centro de Atenção Psicológica e Social (CAPS), na capital, e em 41 Núcleos de Atenção Psicossocial distribuídos por todas as regiões do estado”.
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De outubro de 2023 a junho de 2026, foram 71.855 atendimentos realizados, ainda segundo a pasta.
A Polícia Civil, por sua vez, afirma que “oferece suporte por meio da Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, que conta com psicólogos e assistentes sociais, além de promover seminários e palestras com foco no bem-estar dos profissionais”.
Especialistas afirmam que é preciso ampliar o olhar. Questões como assédio moral, jornadas desgastantes, pressão permanente, insegurança jurídica, endividamento, acesso facilitado à arma de fogo e uma cultura profissional que associa vulnerabilidade à fraqueza passaram a fazer parte da discussão sobre preservação da vida dos policiais.
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A professora Dayse Miranda, que estuda o tema há quase duas décadas, propõe uma mudança no foco da discussão. “O adoecimento mental dos policiais já é uma realidade. É preciso perguntar o que as instituições fazem para proteger e cuidar a vida desses trabalhadores. Será que eles são vistos como trabalhadores pelas instituições? Creio que não”.
“A prevenção do suicídio entre profissionais de segurança não é um tema setorial. É um problema de saúde pública que demanda resposta intersetorial, baseada em evidências e sustentada ao longo do tempo”, avalia Raquel Antoniassi.
Entre as medidas apontadas pela especialista estão:
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O Ministério da Justiça e Segurança Pública cita o Projeto Escuta Susp, que “disponibiliza atendimento psicológico e psiquiátrico on-line, gratuito, sigiloso e especializado para profissionais de segurança pública dos estados e das guardas municipais, em parceria com os entes federativos”.
O Ministério também afirma que elabora as Diretrizes Nacionais de Saúde Mental e de Prevenção da Violência Autoprovocada e do Suicídio dos Profissionais de Segurança Pública, conforme previsto na Lei nº 14.531/2023.
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
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