As universidades brasileiras ainda ficam longe do Top 100 mundial por alguns motivos estruturais. O declínio das instituições de ensino superior reflete anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos. Em contrapartida, as universidades no topo dos rankings, como Harvard, MIT e Oxford, recebem bilhões em investimentos públicos e privados, além de doações de ex-alunos.
No Brasil, o orçamento das universidades federais é muito apertado e instável. Além disso, a pesquisa e a produção científica ainda são incipientes em muitas instituições, sobretudo nas privadas.
No THE 2026, até a Uerj — a 21ª colocada do Brasil — obteve apenas 13,8 no indicador “Research Environment”. Faltam verbas adequadas para laboratórios, bolsas de pós-graduação, equipamentos de ponta e tempo para que os professores desenvolvam pesquisas. Muitos docentes precisam dedicar grande parte da carga horária às aulas, restando pouco tempo para a atividade científica.
A internacionalização no país ainda é baixa. As universidades brasileiras têm pouca troca de alunos e professores com instituições estrangeiras, poucas publicações em coautoria internacional e baixa atração de estudantes do exterior. A Universidade Católica de Brasília obteve 37,4 nesse quesito, uma das notas mais altas do Brasil, mas ainda distante das instituições globais.
Outro fator importante a ser considerado é a empregabilidade e a conexão com a indústria. As universidades que ocupam o topo dos rankings mantêm grandes parcerias com empresas e startups, além de receberem vultosos recursos provenientes de projetos aplicados. No Brasil, essa realidade ainda é incipiente. No CWUR, a FGV é uma exceção, com nota 35 em empregabilidade, mas a maioria das instituições está bem abaixo desse desempenho.
A fuga de cérebros é outro aspecto preocupante. Muitos pesquisadores brilhantes, por falta de incentivo, vão para o exterior cursar mestrado, doutorado e desenvolver suas carreiras. Além disso, a cultura de doações de ex-alunos para as universidades praticamente não existe no Brasil. Nos Estados Unidos, essas contribuições financiam prédios inteiros, e os doadores têm seus nomes registrados em salas, laboratórios, edifícios e bibliotecas.
A estrutura administrativa também é excessivamente burocrática. Os processos de compra são lentos, assim como a contratação de docentes estrangeiros. Essa engrenagem burocrática atrasa a pesquisa e a inovação.
Mesmo com todas essas dificuldades, o Brasil conta com 15 universidades entre as mil melhores do mundo. A USP ocupa a 119ª posição no CWUR e a 133ª no QS 2027, liderando a América Latina. Em áreas específicas, a universidade possui 11 cursos entre os 50 melhores do mundo. Ou seja, qualidade acadêmica existe, ainda que concentrada em poucas instituições. O que falta é investimento pesado, contínuo e maior internacionalização.
As principais deficiências do ensino superior brasileiro podem ser agrupadas em quatro frentes:
a) Financiamento e investimento. Essa é a raiz de quase todos os problemas. O orçamento instável das universidades públicas, marcado por cortes e atrasos, compromete a pesquisa, a manutenção dos laboratórios e a contratação de profissionais. Anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência ajudam a explicar a queda do Brasil nos rankings globais. Vale destacar que os países líderes investem entre 2% e 3% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D). No Brasil, esse percentual representa menos da metade desse patamar.
b) Qualidade e internacionalização. No ranking THE, até mesmo as melhores universidades brasileiras obtêm notas baixas no indicador “International Outlook”. Soma-se a isso a desigualdade regional: a excelência permanece concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, enquanto faltam universidades de pesquisa de ponta nas regiões Norte e Nordeste. Outro desafio é a expansão do ensino a distância sem controle suficiente. O crescimento do EaD democratizou o acesso, mas há muitas instituições com baixa qualidade acadêmica, polos inadequados e altos índices de evasão.
c) Conexão com o mercado e com a sociedade. A empregabilidade ainda precisa avançar. Muitos cursos continuam formando para o diploma, e não para o desenvolvimento de competências. Exceções, como a FGV, apresentam bom desempenho nesse indicador. Ainda são poucas as universidades que mantêm uma relação consistente com a indústria. As instituições que lideram os rankings internacionais desenvolvem inúmeros projetos em parceria com empresas, realidade que ainda é limitada no Brasil.
d) Acesso, permanência e evasão. Esses aspectos exigem maior atenção dos gestores. Muitos estudantes ingressam por meio do Fies, ProUni ou Sisu, mas não conseguem concluir a graduação por falta de apoio financeiro, psicológico e pedagógico. Além disso, muitos chegam ao ensino superior com deficiências acumuladas no ensino médio, obrigando as universidades a suprirem lacunas da educação básica.
USP, Unicamp e UFRJ figuram entre as 500 melhores universidades do mundo. O principal gargalo do Brasil não é a falta de talento, mas a ausência de políticas públicas de investimento contínuo, aliadas à internacionalização e à aproximação com o mercado.
A internacionalização é um dos critérios de maior peso nos rankings QS e THE, justamente um dos pontos em que as universidades brasileiras apresentam maior dificuldade. No THE 2026, até a Uerj obteve apenas 29,7 em “International Outlook”, enquanto as 100 melhores universidades do mundo costumam alcançar notas superiores a 80.
As principais barreiras são a reduzida mobilidade acadêmica e a baixa circulação internacional. O Brasil recebe poucos estudantes estrangeiros, em razão da burocracia para obtenção de vistos, da barreira do idioma e da escassez de bolsas de estudo. A contratação de professores estrangeiros também enfrenta excesso de burocracia nas universidades públicas e é pouco frequente nas privadas, podendo levar de seis meses a um ano.
Nos Estados Unidos e na Europa, cerca de 50% dos artigos científicos contam com autores de outros países. No Brasil, esse percentual é significativamente menor. Faltam editais que estimulem parcerias internacionais e recursos para participação de pesquisadores em congressos no exterior.
Fora da América Latina, poucas pessoas conhecem universidades como USP e Unicamp, em parte pela ausência de investimentos em marketing acadêmico internacional. Na Holanda e na Alemanha, cerca de 90% dos cursos de mestrado são oferecidos em inglês, com mensalidades acessíveis para estudantes europeus. O Brasil não precisa oferecer todos os cursos nesse idioma, mas precisa avançar em três aspectos básicos: ampliar a oferta de cursos em inglês, reduzir a burocracia para receber estrangeiros e destinar recursos para que professores realizem intercâmbios e pesquisas no exterior.
A falta de conexão com o mercado também é um problema real. Afinal, a universidade está formando profissionais para quê? Esse é um dos fatores que mais influenciam a empregabilidade.
As universidades do Top 100 mantêm parcerias permanentes com empresas. No Brasil, esse envolvimento ainda é limitado. Grande parte da pesquisa permanece restrita ao ambiente acadêmico. Os professores publicam artigos científicos, mas as empresas muitas vezes desconhecem esses estudos, e boa parte da pesquisa básica não se transforma em produtos, patentes ou startups.
Falta um sistema robusto de transferência de tecnologia na maioria das instituições de ensino superior. No THE 2026, por exemplo, as notas brasileiras no indicador “Industry” permanecem baixas: Uerj, 23,2; UFRN, 43,3. As universidades líderes do mundo costumam superar os 90 pontos.
Os currículos, em muitos casos, permanecem distantes das necessidades do mercado de trabalho. Diversos cursos levam entre quatro e cinco anos para atualizar suas matrizes curriculares, enquanto o mercado muda em questão de meses. Também faltam estágios obrigatórios de qualidade, projetos desenvolvidos em parceria com empresas e disciplinas de empreendedorismo nos projetos pedagógicos. A FGV é uma exceção, alcançando nota 35 em empregabilidade no CWUR, a melhor do Brasil.
Nos Estados Unidos, a Google possui instalações dentro da Universidade Stanford. No Brasil, a legislação e a burocracia dificultam esse tipo de integração.
Caso as universidades se aproximassem mais da indústria, três resultados seriam esperados: maior geração de empregos, mais recursos para pesquisa e melhor desempenho nos rankings internacionais.
O ensino a distância foi o principal responsável pela democratização do acesso ao ensino superior no Brasil. Atualmente, mais de 50% das novas matrículas ocorrem nessa modalidade. Entretanto, esse avanço trouxe desafios importantes: muitas pessoas ingressam, poucas concluem os cursos e a qualidade varia significativamente entre as instituições.
Os principais problemas são:
a) Elevada evasão, principalmente pela falta de apoio acadêmico. No ensino presencial, o estudante conta com professores, colegas e biblioteca. No EaD, muitos enfrentam as dificuldades sozinhos e acabam desistindo diante de obstáculos em disciplinas como Matemática.
b) Muitos alunos ingressam por meio do Fies ou do ProUni, mas não conseguem arcar com despesas como internet ou computador, ou precisam conciliar os estudos com o trabalho. Além disso, muitos acreditam que o EaD seja mais fácil e desistem ao perceberem as exigências de provas, TCCs e prazos.
A taxa de evasão no ensino a distância chega a variar entre 40% e 50% em diversas instituições. O MEC avalia os cursos por meio do Enade e do Conceito Preliminar de Curso (CPC), mas a oferta cresceu muito rapidamente, com polos deficientes, falta de infraestrutura, ausência de tutores e escassez de laboratórios.
O Brasil vem perdendo posição em comparação com universidades de outros países. Enquanto diversas nações avançam rapidamente em ciência e tecnologia, o Brasil evolui em ritmo lento e ocupa posições muito inferiores ao seu potencial nos rankings internacionais, devido à falta de investimentos e à ausência de políticas públicas consistentes.
Infelizmente, a educação ainda não é tratada como política de Estado no país, ao contrário das nações mais desenvolvidas, que compreendem que investir em educação não representa um custo, mas um investimento.