Nova espécie de rã-de-vidro é descoberta no Cerrado de Goiás
setembro 24, 2026
Fernando Andrade
Uma nova espécie de rã-de-vidro foi descrita pela ciência após ser localizada em Luziânia, no estado de Goiás. Batizada de Vitreorana micaelae, a rã esverdeada e quase transparente foi encontrada nas matas de galeria que margeiam os riachos afluentes do Rio Corumbá, no bioma Cerrado.
A descoberta é resultado do trabalho integrado de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade de Brasília (UnB), liderados pelo biólogo Wilian Vaz-Silva.
Depois de encontrar os animais e gravar o canto, a equipe partiu para a avaliação e a comparação com outros grupos de rãs-de-vidro. “Essas rãs são, de modo geral, mais restritas à Mata Atlântica e à Amazônia”, explica Reuber Brandão, biólogo autor do estudo e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário.
Com base em morfologia, bioacústica, genética molecular e trabalho de campo, os pesquisadores concluíram que se trata da 11ª espécie do gênero. Das rãs-de-vidro conhecidas, apenas quatro ocorrem no território brasileiro, e esta é a segunda exclusiva do Cerrado.
Segundo Brandão, além de material molecular diferente das espécies já conhecidas, foram identificadas características únicas nos indivíduos analisados. “Do ponto de vista bioacústico, é um bicho com muito menos notas de canto. Tem diferenças sutis, mas consistentes, na forma da íris, na pigmentação dorsal e na morfologia, especialmente da região próxima à cloaca”, detalha.
A falta de conhecimento sobre a espécie, inclusive entre a comunidade local, é justificada pelos hábitos do animal. “Esse bicho canta no alto de árvores em barrancos inclinados na beira do rio, e só quando está chovendo intensamente. Mesmo para a gente que está em campo procurando esses animais ativamente, leva tempo até encontrar populações na região”, diz.
O tamanho de pouco mais de 2 centímetros e a ocorrência espalhada dos indivíduos também dificultaram a associação da espécie a um nome popular já utilizado pelas comunidades locais. “As pessoas têm mais nomes populares para anfíbios que cantam de forma mais evidente, como sapo-martelo, sapo-cachorro”, acrescenta Brandão.
Durante o estudo, os pesquisadores também compreenderam melhor o processo reprodutivo da espécie, similar ao de outras do grupo Vitreorana. “O casal coloca os ovos em cima de folhas de árvores altas. Os ovos ficam grudados sobre a folha. O macho toma conta. Após a eclosão, esses girinos caem no riacho que fica lá embaixo e se enterram no sedimento”, relata.
A similaridade reprodutiva pode ter levado outros pesquisadores, que relataram indivíduos na região em 2013, a identificá-los como uma espécie já descrita. “Eles identificaram como Vitreorana eurygnatha e não perceberam que era uma espécie nova”, conta.
O estudo foi publicado na edição de setembro da revista científica ZooKeys e recomenda a classificação da espécie como Dados Insuficientes (DD) no sistema da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), devido à necessidade de conhecer o tamanho populacional e as ameaças. “Depois desse estudo, já identificamos mais uma localidade no Cerrado com a presença da espécie. Até agora são três, mas isso é novidade, está em estudo e não foi publicado ainda”, acrescenta Brandão.
O nome escolhido homenageia a bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, esposa de Wilian Vaz-Silva, em reconhecimento à colaboração entre os cientistas.
A corrida contra o tempo marca o esforço conjunto. Mudanças climáticas que alteram o regime hídrico e a interferência humana no Cerrado, com desmatamento e represamento de rios para pequenas hidrelétricas, impactam diretamente os habitats de anfíbios como a Vitreorana micaelae. A conclusão de Brandão resume a preocupação: “Menos chuva, menos riachos, menos sapos e rãs e menos descobertas”.
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