Uma das principais mudanças provocadas pela inteligência artificial no mercado de consultoria está na maneira como as empresas buscam resultados com a tecnologia. Até pouco tempo atrás, um dos principais temas de discussão era sobre como usá-la – agora, a realidade é outra: a busca pelo retorno financeiro. É o que observa Alexandre Ribas, CEO da Falconi, consultoria brasileira de gestão que investiu R$ 100 milhões em tecnologia e IA entre 2022 e 2026.
A aposta começou antes da popularização das ferramentas de IA generativa. Durante o ciclo estratégico de 2018 a 2020, a Falconi já trabalhava com clientes em soluções de previsão e prescrição baseadas em dados. À época, a companhia identificou que o avanço da digitalização das empresas exigiria uma mudança na maneira como a consultoria desenvolvia e entregava suas soluções.
"Entendemos, já naquele momento, que o futuro da consultoria de gestão passaria por dominar inteligência artificial, principalmente a discriminativa, que já usávamos", afirma Ribas, em entrevista à Época NEGÓCIOS. A decisão levou à construção de uma estrutura tecnológica a partir de 2022, que permitiu à empresa acelerar seus planos de incorporação da IA quando as ferramentas generativas ganharam espaço no mercado, em 2024 e 2025.
O investimento de R$ 100 milhões contemplou infraestrutura em nuvem, licenciamento de modelos de IA generativa, desenvolvimento de modelos próprios de machine learning, parte deles em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), e a criação de uma estrutura interna.
O impacto comercial já aparece nos números da companhia. As vendas de tecnologia cresceram 27,5% entre 2024 e 2025 e avançaram 90% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Em apenas dois anos, a penetração dessas soluções nas ofertas tradicionais da Falconi chegou a 10%. Do total das vendas de tecnologia, 80% são provenientes de projetos de automação de processos com agentes de IA. Os outros 20% correspondem a plataformas de dados e soluções preditivas e prescritivas.
Para transformar o investimento em novas soluções, a Falconi primeiro passou a identificar onde a inteligência artificial poderia gerar valor para o cliente, selecionar as áreas prioritárias e definir metas. A partir daí, entraram as plataformas de dados, os modelos especializados em previsão e prescrição e a automação de processos com agentes de IA.
A implementação também envolve o redesenho de processos, estruturas organizacionais e aspectos culturais das empresas atendidas. "Para nós, gestão e tecnologia não são adições sequenciais, são indissociáveis. Não existe tecnologia transformadora sem uma gestão robusta que a guie, assim como não existe gestão eficaz que ignore as possibilidades que a tecnologia abre", afirma Ribas.
Segundo o executivo, a Falconi mantém uma equipe dedicada a avaliar e especificar quais tecnologias devem ser incorporadas às soluções tradicionais da consultoria. A escolha considera o desafio de cada cliente, seu nível de maturidade em dados e gestão e o impacto esperado com a implementação.
A integração entre tecnologia e gestão também orienta a maneira como a empresa acompanha os resultados dos projetos. A intenção é evitar que a adoção de novas ferramentas se limite à execução de iniciativas pontuais, sem continuidade depois do encerramento do trabalho da consultoria.
Além de desenvolver soluções para clientes, a Falconi criou uma plataforma interna de inteligência artificial para transformar seu próprio acervo de conhecimento em uma ferramenta de trabalho para os consultores. Batizada de Vicente, em referência ao professor Vicente Falconi, fundador da consultoria, a plataforma organiza informações acumuladas ao longo de mais de quatro décadas de atuação da empresa.
O sistema reúne dados sobre organizações, propostas, projetos, profissionais, soluções e indicadores, permitindo que os consultores acessem e utilizem esse conhecimento em suas atividades. A plataforma funciona em duas camadas. A primeira consolida o conhecimento já existente na Falconi. A segunda utiliza esse acervo para produzir novos trabalhos, como a elaboração de propostas por meio de um copiloto de IA, em espaços dedicados às tarefas dos consultores.
O conhecimento produzido nessas atividades retorna à base de informações, alimentando continuamente o sistema. A plataforma também utiliza o Model Context Protocol (MCP), protocolo que permite conectar ferramentas de inteligência artificial a fontes externas de dados. Com isso, o acervo da Falconi pode ser acessado pelas ferramentas de IA que os profissionais já utilizam em suas rotinas.
"Isso é o que diferencia o Vicente de um GPT convencional. Ele tem acesso ao que nos torna únicos, que são os nossos próprios dados e resultados comprovados", conta Ribas.
Na prática, a ferramenta permite que os consultores recorram ao conhecimento acumulado pela empresa para buscar estudos de caso, consultar métodos e benchmarks e elaborar novas propostas. A Falconi estima que o Vicente proporcione um ganho de produtividade de, no mínimo, 30% nessas atividades.
Atualmente, a empresa acompanha indicadores quantitativos, como adoção por usuários e projetos e consumo de tokens, além de aspectos qualitativos, como qualidade dos dados, consistência metodológica, capacidade de recombinar conhecimento proprietário e assertividade das respostas.
"É uma frente que estamos maturando, porque, assim como qualquer solução de IA, medir o resultado com disciplina é a parte que mais importa. E vamos aplicar esse mesmo princípio ao Vicente", afirma o executivo.
O contexto da matéria iniciar se em 00:00 e seu término está em 00:00.
O contexto da matéria iniciar se em 00:00 e seu término está em 00:00.