A Bacia do rio Paraíba do Sul, que desempenha papel estratégico no Sudeste brasileiro ao garantir o abastecimento de mais de 20 milhões de pessoas nas regiões de São Paulo e do Rio de Janeiro, além de sustentar importantes polos industriais e metropolitanos, enfrenta um futuro de crescentes desafios climáticos.
É o que revela um novo estudo publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos. A pesquisa aponta que, embora as secas meteorológicas na região possam se tornar menos frequentes ao longo do século XXI, os eventos que ocorrerem tendem a ser significativamente mais longos e severos.
Em menos de 15 anos, a região já enfrentou duas secas severas — entre 2001 e 2003 e durante a histórica crise de 2014 e 2015, considerada a mais seca desde 1931 — e voltou a se aproximar de condições críticas no fim de 2025.
Diante desse cenário, uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) avaliou o comportamento das secas em períodos de curto e médio prazo (2021-2060) e de longo prazo (2061-2100). Para isso, foram utilizadas projeções climáticas de última geração sob cenários de emissões moderadas e extremas.
O engenheiro, mestre em Recursos Hídricos e pesquisador do Programa de Doutorado em Engenharia Ambiental da UERJ, Lucas Pereira de Almeida, um dos autores do estudo, explicou ao O POVO que o principal desafio para o futuro não está necessariamente no aumento da frequência das secas, mas na possibilidade de que os eventos se tornem significativamente mais longos e severos ao longo do século.
Ele compara a dinâmica a um paciente que adoece menos vezes, mas enfrenta infecções muito mais graves e debilitantes.
“A recuperação entre um evento crítico e outro pode levar mais tempo. Para quem vive nas regiões abastecidas pelo Paraíba do Sul, a principal mensagem é que precisamos olhar não apenas para as emergências, mas também para a preparação”, esclarece.
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Um dos pontos que mais chama a atenção na pesquisa é a variabilidade espacial do sinal climático, indicando que a bacia não responderá de maneira homogênea às mudanças projetadas.
Segundo o pesquisador: “O aumento de duração é mais acentuado na porção alta da bacia, no sistema de reservatórios Paraibuna, Santa Branca e Jaguari, responsável por regular o sistema, enquanto o aumento de severidade se concentra mais na porção média da bacia, com destaque para Santa Cecília.”
Essa variação, conforme a análise, exige estratégias de gestão específicas para diferentes trechos da bacia, em vez de uma resposta única para todo o sistema.
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Embora os resultados não representem uma previsão de crise de abastecimento — já que a pesquisa analisa a seca meteorológica, caracterizada pelo déficit de chuva, e não a operação direta dos reservatórios —, os dados acendem um sinal de alerta. Reservatórios submetidos a períodos mais persistentes de níveis reduzidos podem ter menor margem de recuperação entre um evento crítico e outro.
Para o pesquisador, os resultados reforçam que o planejamento deve começar desde já. “O que os resultados indicam é um aumento da exposição a condições climáticas mais adversas, o que reforça a importância de antecipação, planejamento e monitoramento contínuo para que esse sinal climático não se converta, de fato, em crise hídrica”, defende.
Para chegar às conclusões, a pesquisa utilizou dados observados de precipitação da base CRU TS O CRU TS (Climatic Research Unit gridded Time Series) é um conjunto de dados climatológicos globais em formato de grade que registra as variações mensais do clima na Terra desde o ano de 1901. , referentes ao período de 1901 a 2018, combinados com simulações de modelos climáticos globais do CMIP6 O CMIP6 (Sexta Fase do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados) é uma iniciativa científica internacional que coordena simulações computacionais do clima global para entender as mudanças climáticas passadas, presentes e futuras. Fonte: Programa Mundial de Pesquisa Climática (WCRP) . Foram considerados dois cenários de emissão de gases de efeito estufa: o SSP2-4.5, considerado intermediário, e o SSP5-8.5, classificado como extremo.
Lucas ressalta que o estudo possui limitações que ainda precisam ser aprofundadas pela ciência para que seja possível obter projeções mais precisas sobre os impactos das mudanças climáticas na disponibilidade hídrica.
“O SPI O Índice SPI (Índice de Precipitação Padronizada) é uma ferramenta matemática usada para monitorar a seca e o excesso de chuva. (Fonte: Inmet) , o índice que usamos, é baseado apenas em chuva e não incorpora a evapotranspiração [...]. Além disso, o estudo analisa exclusivamente a seca meteorológica, isto é, o déficit de chuva; ele não inclui modelagem hidrológica, então não sabemos ainda, com precisão, como esse sinal se traduziria em vazão dos rios ou em operação real dos reservatórios”, explica.
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Avaliar o clima do futuro é um grande desafio para a ciência devido às divergências naturais entre os diferentes modelos climáticos globais. Para reduzir esse problema e obter projeções mais precisas, a equipe de pesquisadores aplicou uma ferramenta desenvolvida pelos próprios autores: o Índice de Representação de Secas (DRIP, na sigla em inglês).
O DRIP foi desenvolvido para avaliar quais, entre os 36 modelos climáticos globais do projeto CMIP6, conseguem reproduzir com maior fidelidade o comportamento das secas históricas registradas na bacia entre 1979 e 2018. A partir dessa avaliação, os cientistas selecionaram os modelos com melhor desempenho para construir um modelo combinado e ponderado.
A aplicação da metodologia reduziu entre 60% e 70% a incerteza das projeções nas métricas de duração, severidade e tempo de retorno das secas, conferindo maior robustez aos dados gerados.
A professora Rosa Maria Formiga-Johnsson, coautora da pesquisa, destaca o potencial da inovação para a gestão pública, especialmente na elaboração de projeções mais seguras para o planejamento do abastecimento e a antecipação de possíveis crises de longo prazo.
“A aplicação do índice DRIP provou ser altamente eficaz para filtrar os modelos climáticos e reduzir os vieses de seleção. Em vez de confiarmos em análises de um único modelo, que podem ser tendenciosas, passamos a contar com uma combinação weighted (ponderada) de modelos de alto desempenho”, declarou no estudo.
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Outro dado importante revelado pela pesquisa é o aumento nos chamados “períodos de retorno” das secas. Na prática, isso significa que os eventos extremos tendem a ocorrer em intervalos maiores do que no passado, tornando-se menos frequentes.
Os pesquisadores, porém, alertam que essa aparente melhora pode esconder um risco: quando as secas demoram mais para ocorrer, a sociedade e as autoridades públicas podem perder a percepção sobre os impactos provocados pelo último evento extremo. Com isso, medidas preventivas podem ser adiadas até que uma nova crise aconteça.
“Entendemos que essa é a provocação mais importante do estudo”, afirma Lucas.
Questionado sobre o que precisa ser feito desde já para preparar a região para esse cenário, o pesquisador aponta três frentes prioritárias para a discussão pública.
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A primeira envolve a revisão das regras de operação dos reservatórios, de modo que possam responder às condições climáticas momentâneas, além da ampliação do monitoramento em tempo real e do investimento em novas estruturas de reservação.
A segunda frente inclui programas permanentes de eficiência hídrica, redução de perdas de água e diversificação das fontes de abastecimento, como reúso e captação complementar.
A terceira envolve a criação de planos de contingência baseados em gatilhos climáticos, além do fortalecimento da integração entre os órgãos públicos responsáveis pela gestão dos recursos hídricos.
Por fim, Lucas destaca a importância de preservar a memória dos eventos extremos para evitar que períodos de maior disponibilidade de água levem à redução da preparação para novas crises.
“Preservar a memória dos eventos passados para evitar o chamado ‘ciclo hidro-lógico’, usando os períodos de abundância para preparar o sistema, em vez de esperar a próxima crise”, conclui.
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