Cocaína aparece em 59 de 60 amostras de rios do Rio, e substância deixada pelo organismo causa danos a peixes até em concentração menor, revela Fiocruz
A água foi coletada mês após mês em cinco rios e canais do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. Quando os pesquisadores terminaram um ano de monitoramento e abriram os resultados, havia um padrão difícil de ignorar: entre 60 amostras analisadas, 59 apresentavam cocaína.
O dado mais surpreendente, porém, veio de outra substância. A benzoilecgonina, principal metabólito produzido depois que o organismo humano processa a cocaína, apareceu em todas as amostras e, em testes com embriões de peixes, provocou efeitos tóxicos até em concentrações muito inferiores às registradas no ambiente.
A pesquisa foi liderada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e publicada na revista científica Aquatic Toxicology. Participaram também pesquisadores da Ensp/Fiocruz, INCQS/Fiocruz, Uerj, UFRJ e Unirio, em trabalho coordenado por Enrico Saggioro e desenvolvido no doutorado de Gabriel de Farias Araujo.
A descoberta transforma um problema normalmente associado à saúde pública e à segurança em outra questão: depois de consumida, parte da droga deixa o corpo humano, entra na rede de esgoto e pode chegar aos rios, onde passa a interagir com organismos que nunca tiveram relação alguma com seu uso.
Os pesquisadores acompanharam os mesmos cinco pontos durante um ano
A equipe realizou coletas mensais entre julho de 2022 e junho de 2023. Foram monitorados os rios Irajá e Carioca, os canais do Cunha e do Mangue, na cidade do Rio de Janeiro, além do Rio Meriti, em Duque de Caxias.
Todos esses cursos d’água fazem parte da bacia que desemboca na Baía de Guanabara, o que amplia a relevância ambiental dos resultados para além dos pontos específicos onde as amostras foram retiradas.
No fim das 12 campanhas, os cientistas haviam reunido 60 amostras.
A cocaína foi detectada em aproximadamente 97% delas. O artigo científico registrou concentrações médias de cerca de 242 nanogramas por litro para a cocaína, com valores máximos pouco acima de 1.020 ng/L.
A benzoilecgonina apareceu em 100% das campanhas.
Para esse metabólito, a média chegou a aproximadamente 751 ng/L, enquanto o maior valor registrado alcançou cerca de 1.850 ng/L.
O metabólito conta uma história diferente da cocaína encontrada diretamente na água
Encontrar cocaína em um rio não revela sozinho como ela chegou até ali.
Uma pessoa pode imaginar descarte direto da droga, mas os pesquisadores analisaram também a benzoilecgonina justamente porque ela oferece uma pista importante sobre a origem da contaminação.
Depois que uma pessoa consome cocaína, o organismo transforma parte da substância em metabólitos. A benzoilecgonina é o principal deles e é eliminada sobretudo pela urina.
Quando sua concentração aparece sistematicamente acima da cocaína original, o padrão é compatível com entrada de esgoto contendo excretas humanas.
Foi exatamente o que ocorreu em quase todas as amostras analisadas.
Isso sugere que boa parte da contaminação registrada não corresponde simplesmente a pacotes de droga jogados em rios, mas a uma cadeia muito mais cotidiana: consumo, metabolização, eliminação pelo organismo, esgoto e chegada aos corpos d’água.
Uma única amostra contou uma história completamente diferente
Em apenas uma das amostras, os pesquisadores encontraram uma inversão marcante.
A concentração de cocaína era cerca de quatro vezes maior que a quantidade de benzoilecgonina.
Esse padrão não combina com o observado normalmente quando a origem predominante é a excreção humana.
Segundo a Fiocruz, o resultado indica a possibilidade de descarte direto de cocaína naquele episódio específico, embora o estudo não identifique a origem exata nem permita determinar quem teria realizado esse descarte.
É uma diferença importante.
O levantamento consegue mostrar assinaturas químicas distintas, mas não transforma cada concentração em prova de uma atividade específica sem evidência adicional.
Janeiro apresentou o maior nível de contaminação
A presença das substâncias também variou ao longo do calendário.
Segundo o IOC/Fiocruz, os níveis foram maiores na estação chuvosa, entre outubro e março, com pico registrado em janeiro.
Os pesquisadores relacionam esse padrão a achados anteriores, nacionais e internacionais, que detectaram maior presença de drogas ilícitas no ambiente em períodos de férias e festas.
Isso não significa que o estudo tenha medido diretamente quanto as pessoas consumiram em cada mês.
O que ele mediu foi a concentração presente nos rios.
A diferença é importante porque chuva, vazão, esgoto, descarte e outros fatores também podem interferir nos valores ambientais.
Os números do Rio superaram resultados encontrados em outros países
O estudo chama atenção não apenas porque detectou as substâncias, mas pela magnitude das concentrações.
Os autores relatam que os níveis observados frequentemente ultrapassaram aqueles registrados em estudos de águas superficiais realizados em outros locais do mundo, incluindo Bélgica, Espanha e Estados Unidos.
Em alguns casos, segundo o artigo científico, as concentrações chegaram a superar valores já observados em influentes de estações de tratamento de esgoto e até em esgoto bruto descrito em pesquisas anteriores.
Isso coloca os rios analisados em uma situação particularmente preocupante.
Não se trata simplesmente de detectar traços extremamente pequenos com equipamentos cada vez mais sensíveis.
A pergunta seguinte dos pesquisadores foi justamente se os níveis presentes no ambiente seriam suficientes para produzir efeitos biológicos.
Para responder, a equipe expôs embriões de peixe às mesmas faixas encontradas nos rios
Os cientistas utilizaram embriões de zebrafish, também conhecido como peixe-zebra, um organismo muito usado em estudos de toxicologia ambiental.
Esses animais permitem acompanhar alterações durante o desenvolvimento embrionário e observar mudanças morfológicas, cardiovasculares e bioquímicas depois da exposição a contaminantes.
No experimento, os embriões ficaram expostos durante 96 horas a diferentes concentrações de cocaína e benzoilecgonina, variando de 100 a 5.000 nanogramas por litro.
A escolha dessas doses não foi aleatória.
Elas se aproximam das concentrações ambientais medidas nos rios e permitem verificar se níveis encontrados fora do laboratório possuem capacidade real de afetar organismos aquáticos.
Os peixes apresentaram deformações, alterações cardíacas e estresse oxidativo
Os resultados mostraram efeitos causados tanto pela cocaína quanto pela benzoilecgonina.
Entre as alterações observadas estavam problemas de desenvolvimento, deformações, aumento de mortalidade, mudanças cardiovasculares e sinais de estresse oxidativo.
Nos embriões expostos à cocaína, um dos efeitos mais evidentes foi edema na região do saco vitelino.
No caso da benzoilecgonina, destacou-se o inchaço ao redor do coração, além do aumento da frequência cardíaca registrado nas diferentes concentrações testadas.
Essas respostas mostram que a droga não precisa atingir um animal em doses semelhantes às utilizadas por seres humanos para interferir em processos fisiológicos.
Organismos pequenos e em desenvolvimento podem responder a concentrações ambientais muito inferiores.
O subproduto da cocaína foi mais tóxico do que a própria droga em vários testes
Esse é provavelmente o resultado mais inesperado do estudo.
A benzoilecgonina costuma ser tratada principalmente como marcador de consumo porque permanece no organismo e no ambiente depois da metabolização da cocaína.
Nos ensaios, porém, ela não se comportou apenas como uma pista química.
Produziu efeitos próprios.
Segundo a Fiocruz, danos foram detectados em concentrações equivalentes a apenas cerca de 13% do nível de benzoilecgonina encontrado no ambiente.
O artigo científico também mostra que a substância causou efeitos significativos em concentrações a partir de 100 ng/L, abaixo da média ambiental registrada nos rios estudados.
Isso muda a dimensão do problema.
Mesmo que a cocaína seja transformada depois de passar pelo organismo humano, seu principal metabólito não deve ser considerado ambientalmente irrelevante.
O peixe não precisa “usar cocaína” para sofrer seus efeitos
Essa distinção ajuda a evitar uma interpretação caricata dos resultados.
Não se trata de afirmar que peixes estejam “drogados” da mesma maneira que uma pessoa que consome cocaína.
O que ocorre é exposição química.
Moléculas presentes na água entram em contato com organismos aquáticos e podem interferir em processos fisiológicos extremamente sensíveis durante o desenvolvimento.
Alterações cardíacas, estresse oxidativo e deformações podem reduzir a capacidade de sobrevivência de indivíduos mesmo sem produzir um comportamento visível imediatamente.
Em populações naturais, consequências desse tipo podem se acumular ao lado de outros contaminantes já presentes em rios urbanos.
E a cocaína certamente não está sozinha nessa água
Rios que recebem esgoto urbano carregam uma mistura complexa.
Medicamentos, hormônios, produtos de higiene, pesticidas, metais e outros compostos podem chegar ao ambiente simultaneamente.
A pesquisa isolou cocaína e benzoilecgonina para entender seus efeitos específicos, mas um peixe vivendo no rio real pode estar exposto a várias substâncias ao mesmo tempo.
Isso cria um problema adicional para a toxicologia ambiental.
Mesmo quando a concentração individual de determinado composto parece pequena, combinações podem produzir respostas diferentes daquelas observadas quando cada substância é testada separadamente.
O próprio conceito de “contaminantes emergentes” ganhou importância por causa desse tipo de situação.
São compostos cuja presença ambiental começou a ser monitorada mais recentemente e para os quais muitas vezes ainda não existem limites regulatórios específicos.
A cocaína no rio também funciona como retrato indireto do saneamento
O predomínio da benzoilecgonina em praticamente todas as amostras aponta para a influência do esgoto sanitário.
Isso aproxima a pesquisa ambiental de uma questão conhecida há décadas no Rio de Janeiro: a dificuldade de impedir que esgoto sem tratamento adequado alcance rios, canais e, finalmente, a Baía de Guanabara.
Nesse contexto, a cocaína funciona quase como um marcador involuntário da conexão entre comportamento humano e qualidade da água.
A molécula deixa o organismo, acompanha o esgoto e reaparece quilômetros adiante em um ambiente que deveria funcionar como habitat para inúmeras espécies.
O estudo não mede diretamente a eficiência de cada estação de tratamento nem atribui responsabilidade a um sistema específico.
Mas o padrão químico observado é consistente com a entrada de esgoto contendo resíduos metabólicos humanos.
A pesquisa anterior com tubarões torna a história ainda mais relevante
A própria Fiocruz já havia revelado outro resultado que chamou atenção internacional.
Em 2024, pesquisadores do IOC detectaram cocaína em 13 tubarões-bico-fino-brasileiros coletados no Rio de Janeiro. O metabólito benzoilecgonina foi encontrado em 12 animais.
Os dois estudos não devem ser combinados como se demonstrassem uma cadeia direta entre exatamente esses rios e aqueles animais.
São levantamentos diferentes.
Ainda assim, juntos mostram que resíduos de drogas ilícitas não permanecem necessariamente confinados à rede de esgoto.
Eles podem aparecer em águas superficiais e também ser detectados em organismos aquáticos.
Os pesquisadores agora ampliaram o mapa de cinco para 13 rios
O trabalho não terminou com as 60 amostras.
Diante dos resultados, a equipe iniciou uma segunda etapa abrangendo 13 rios do Rio de Janeiro.
As novas coletas foram realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024, e as análises ainda estavam em andamento quando a Fiocruz divulgou os primeiros resultados em outubro de 2026.
A previsão informada pelo instituto é concluir essa etapa no primeiro semestre de 2027.
Com uma área maior, será possível avaliar se o padrão observado nos cinco cursos d’água se repete em outros pontos da cidade e da Região Metropolitana.
O estudo não diz que a água da torneira do Rio contém cocaína
Essa ressalva é fundamental.
A pesquisa analisou rios e canais urbanos específicos.
Ela não avaliou a água tratada distribuída para consumo doméstico e seus resultados não podem ser usados para afirmar que moradores estejam ingerindo cocaína pela torneira.
Também não significa que qualquer contato ocasional com um desses rios produza os mesmos efeitos observados experimentalmente em embriões de zebrafish.
Os ensaios foram desenhados para estudar risco ecológico e desenvolvimento de organismos aquáticos.
Transformar o resultado em ameaça direta comprovada à população humana iria além das evidências produzidas pelo trabalho.
A preocupação imediata é ecológica
A conclusão dos pesquisadores aponta justamente nessa direção.
Eles defendem que cocaína e benzoilecgonina passem a ser consideradas em programas de monitoramento e em avaliações de risco ambiental, especialmente em regiões urbanizadas com forte influência de esgoto.
Hoje, monitorar um rio costuma envolver indicadores tradicionais como bactérias, oxigênio dissolvido, nutrientes, metais ou matéria orgânica.
O estudo mostra que esse retrato pode estar incompleto.
Uma água pode carregar moléculas associadas aos hábitos cotidianos de uma cidade que não aparecem nos painéis convencionais de controle.
O que uma pessoa consome pode terminar muito longe de seu corpo
Talvez essa seja a imagem mais poderosa deixada pela pesquisa.
O consumo acontece em ambiente privado.
Depois, a substância é metabolizada pelo organismo, eliminada, entra no sistema de esgoto e reaparece em um rio.
A partir desse ponto, deixa de ser apenas uma questão individual.
Passa a integrar a química de um ecossistema.
No Rio de Janeiro, esse percurso foi detectado repetidamente durante um ano: cocaína em 59 das 60 amostras e benzoilecgonina em todas elas.
Mais surpreendente ainda foi descobrir que o metabólito, muitas vezes visto apenas como vestígio de que alguém consumiu a droga, produziu alterações nos embriões de peixe em níveis inferiores aos encontrados na água.
A cocaína, portanto, não desaparece quando termina seu efeito em quem a utilizou.
Parte de sua história química pode continuar pelo esgoto, alcançar rios urbanos e encontrar organismos que passam toda a vida dentro daquela água.
Fonte principal: reportagem de Maíra Menezes para o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), publicada em 7 de outubro de 2026, com base no estudo liderado pelo IOC e publicado na revista Aquatic Toxicology.
Estudo científico: Araujo, G. F. e colaboradores, Cocaine and benzoylecgonine in urban rivers: occurrence, developmental toxicity and oxidative stress in zebrafish embryos, Aquatic Toxicology, volume 301, artigo 108032, publicado em 21 de setembro de 2026.
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