Listão dos aprovados no Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) foi divulgado ontem. A tradicional espera no Teatro de Arena, do câmpus Darcy Ribeiro, em frente ao mural, atraiu calouros, veteranos, pais, professores e amigos, que celebraram as aprovações com gritos de alegria, cartazes improvisados, tinta e farinha jogadas ao ar. Foram 1.716 aprovados entre 11.347 inscritos.
Em momento de alívio e conquista entre tantos nomes comemorados, a história de amizade e dedicação de dois jovens chamou atenção.
Santiago Ghesti Galvão, 17 anos, e Vinicius Cavalcante de Albuquerque, 17, conquistaram o primeiro e o segundo lugar, respectivamente, no concorrido curso de medicina da UnB. Colegas desde o 8º ano no Colégio Pódion, sentavam lado a lado na sala de aula e dividiram uma rotina intensa de estudos. Agora, compartilham a alegria de entrar na graduação. Em comemoração, os dois rasparam a cabeça.
“Estudamos muito tempo juntos. Era uma expectativa muito grande. Foi muita dedicação. Sem cursinho, apenas com o apoio da escola. Depois da aula, a gente ficava fazendo provas antigas e revisando as matérias específicas. A maioria dos dias ficávamos até de noite na escola”, contou Santiago que, além do PAS, garantiu o primeiro lugar em medicina no vestibular da UnB.
A escolha pela medicina, para os melhores amigos, surgiu da junção entre o interesse pela biologia e o desejo de cuidar de pessoas. “Sempre adorei ajudar as pessoas. O corpo humano é algo que me fascina, e a medicina é uma área muito ampla. Espero, algum dia, salvar a vida de alguém”, projeta Vinicius.
Orgulho
A emoção também tomou conta dos pais, que acompanharam de perto o momento da descoberta. Stela Cavalcante, 50, arquiteta e mãe de Vinícius, não escondia o orgulho. “Desde muito cedo, ele esteve firme e forte no objetivo dele”, contou.
Já Ivania Ghesti, 53, especialista em primeira infância e mãe de Santiago, atribuiu o resultado a um processo construído desde os primeiros anos de vida. “Tudo começa do começo. O Santiago participou desde pequeno de ações baseadas na promoção do desenvolvimento humano integral. O cuidado, o afeto, o brincar… acredito que esse é o segredo para o resultado”.
Para o diretor de projetos e professor do Colégio Pódion, Victor Tiburcio, o resultado é consequência de um trabalho que une preparação acadêmica e cuidado com a formação humana. “O PAS exige uma dedicação diferenciada, com foco específico em cada ano e no cumprimento integral da matriz da prova. Além disso, temos uma equipe de professores escolhida a dedo e um ambiente pensado para que o aluno se desenvolva de forma saudável.”
Persistência
Emocionada, Geovana Bezerra, 17, gritou: “Eu passei na UnB em psicologia”. A jovem estudou sozinha no último ano da escola enquanto trabalhava, na parte da tarde. A rotina puxada a obrigava a ir para escola de manhã, trabalhar no período contrário e finalizar o dia com mais estudos. Tudo isso para poder, hoje, ligar para os pais, emocionada, e contar a alegria de ser a nova caloura da UnB.
Com o auxílio de professores, provas antigas e muita revisão, conseguiu a tão sonhada aprovação. Para os que ainda tentam passar na faculdade, a jovem lança uma mensagem de esperança: “Não desistam, corram atrás das suas vontades”.
Outro aprovado foi Felipe Franco, 18, que garantiu vaga em história. “Estou superfeliz. É a segunda aprovação, passei também em museologia pelo vestibular, mas vou escolher história, porque sempre foi a área com a qual me identifiquei”, explicou. Para ele, estudar na UnB representa a realização de um sonho. “É uma faculdade muito boa, com reconhecimento, que merece ser cada vez mais valorizada”.
Morador do Gama, Miguel Cardoso, 16, conquistou uma vaga em engenharia da computação. O jovem sempre estudou em colégios da rede pública. “É um sentimento maravilhoso. Comecei adiantado na escola e acabei amadurecendo muito rápido”, disse.
A escolha pelo curso foi cercada de dúvidas, mas influenciada pelo histórico familiar na área. “Às vezes, eu via a grade horária e pensava que não iria gostar. Se eu fosse me deixar levar por isso, não entraria em curso nenhum”, relatou. Com dificuldades para estudar em casa, Miguel contou com a ajuda da escola e de um cursinho on-line assinado pela mãe. “Juntei tudo isso para ter um bom desempenho e passar na faculdade”.
Aos 24 anos, Gabriel Vinícius, de Sobradinho II, também comemorava a aprovação, desta vez no curso de Línguas Estrangeiras Aplicadas (LEA). Formado em letras inglês, ele busca ampliar a formação. “O currículo de LEA me impressiona porque permite sair falando três idiomas. Eu gosto muito de linguística, então me cativou”, explicou.
Mesmo já tendo passado pela universidade, Gabriel diz viver, agora, uma experiência inédita. “Na minha primeira graduação, eu entrei no meio do ano e não vivi o momento de calouro. É como se fosse a primeira vez. Quero aproveitar e ver até aonde consigo ir com os estudos”.
Acolhimento
A divulgação do listão também marcou o início do acolhimento aos novos estudantes. A veterana de audiovisual Giovana Caridade, 19, participou da recepção organizada pela empresa júnior Pupila, voltada aos calouros do curso.
“Está sendo incrível. Eu nem vi o meu próprio listão na época, então, recepcioná-los agora é uma alegria enorme”, contou. Segundo ela, o acolhimento faz diferença, especialmente em áreas muitas vezes desvalorizadas pelo mercado. “A gente encoraja, mostra como é boa a área. Chegar e ser acolhido assim deixa o estudante mais seguro e ansioso, de um jeito bom, para as aulas começarem”, afirmou. “A galera da comunicação é muito unida”.