Cultura
O sotaque que Brasília jurava não ter: estudo da UnB mede a fala da segunda geração de brasilienses
Pesquisa do Laboratório de Fonética e Fonologia da UnB (LAFFON) identificou padrões acústicos próprios na fala de brasilienses de segunda geração, como o 's' final sem chiado e o 'r' como aspiração leve.
Por Redação Sou Brasília
7 de outubro de 2026, 07h09
3 min de leitura
Foto: George Pak/Pexels
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Quem fez a pesquisa e como ela foi conduzidaQuais padrões de pronúncia o estudo encontrouPor que a ideia de 'Brasília sem sotaque' persisteO que vem depois da pesquisa
Uma pesquisa do Laboratório de Fonética e Fonologia da Universidade de Brasília (LAFFON) encontrou, pela primeira vez com evidência acústica, padrões de pronúncia próprios na fala de brasilienses de segunda geração, pessoas nascidas no Distrito Federal e filhas de pais também nascidos aqui. O estudo derruba a ideia disseminada de que Brasília seria um território linguístico neutro, sem sotaque reconhecível.Quem fez a pesquisa e como ela foi conduzidaO trabalho foi conduzido por Yasmin de Faria Miziara Jreige, Davi Moreira e Amanda Marques, bolsistas de iniciação científica do LAFFON, sob orientação de pesquisadores do laboratório vinculado à Universidade de Brasília. A equipe analisou a fala de 30 participantes nascidos no DF, todos com pai e mãe também brasilienses, um recorte pensado para isolar o que é de fato produção linguística da segunda geração, sem a influência direta do sotaque de origem dos pais.A análise acústica mediu padrões de pronúncia em gravações de fala espontâneaFoto: Alan Quirván/PexelsQuais padrões de pronúncia o estudo encontrouA análise acústica identificou dois traços que se repetem entre os participantes. O primeiro é a pronúncia do 's' final de sílaba sem o chiado típico de outras variantes do português brasileiro: o som sai mais seco, sem a palatalização comum em falares do Rio de Janeiro ou de parte do Nordeste. O segundo é o comportamento do 'r' final de palavra, que aparece como uma aspiração leve, bem diferente do erre retroflexo, aquele som arrastado e grave característico do interior de Goiás e de Minas Gerais, regiões que forneceram boa parte da população que colonizou o Distrito Federal nas décadas seguintes à inauguração da capital.
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Por que a ideia de 'Brasília sem sotaque' persisteSegundo os pesquisadores do LAFFON, a convicção de que a cidade não tem sotaque próprio vem do fato de boa parte da população adulta de Brasília ter nascido em outros estados e carregar, na fala, a marca de origem. Como a capital federal reúne migrantes de todas as regiões do país desde sua fundação, em 1960, o ouvido comum associa a ausência de um sotaque único e dominante à ausência de qualquer sotaque.O estudo do LAFFON argumenta o contrário: a segunda geração, que cresceu ouvindo essa mistura de sotaques dentro de casa e na rua, já consolidou um jeito de falar próprio, diferente de qualquer uma das variantes de origem dos pais. Na avaliação da equipe, isso indica que o processo de formação de um sotaque brasiliense está em curso e já é mensurável em laboratório.O que vem depois da pesquisaAmpliação da amostra para além dos 30 participantes já analisadosComparação com falantes de terceira geração, netos de brasiliensesMapeamento de outros traços sonoros além do 's' final e do 'r' finalO LAFFON integra a Faculdade de Comunicação e o Instituto de Letras da UnB e mantém linhas de pesquisa voltadas à variação linguística no Distrito Federal. A expectativa da equipe é publicar os resultados completos em periódico científico de linguística, com a metodologia detalhada da coleta e da análise acústica das gravações.
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